Jogos cooperativos desafiam a exercitar a cidadania

Jogos cooperativos desafiam a exercitar a cidadania

Com união, criatividade e poucos recursos, pessoas se unem em gincanas para contribuírem com cidades

Em 1996, quando era recém-formado em arquitetura, Edgard Gouveia Júnior se reuniu com um grupo de universitários para revitalizarem o Museu de Pesca de Santos (SP). Foi ao perceber o poder que os jovens tinham para a mudar a realidade da cidade na prática, que ele passou, daí por diante, a desenvolver jogos cooperativos. Com princípios de gincanas, grupos são convidados a cumprir tarefas cidadãs, como restaurar e construir praças e creches. Tudo isso em prazos apertados e sem dinheiro.

Criador de pelo menos quatro jogos cooperativos – Oasis, Guerreiros sem armas, Play the call e Jornada X – Gouveia vê nas brincadeiras uma forma bastante peculiar de se exercer a cidadania. “Na gincana, uma pessoa se transforma na melhor versão de si. E o melhor: trabalhando colaborativamente”, enfatiza.

Como os jogos podem contribuir para o exercício da cidadania?
Edgard Gouveia Jr.: No interior do Brasil, havia o costume de realizar mutirões, quando amigos e vizinhos se reuniam para levantar a casa de uma pessoa, por exemplo. Algo que poderia durar meses era realizado em uma semana, às vezes, até menos, com a ajuda do coletivo. Isso contando a construção, o “matar o corpo” (matar uma galinha, boi ou porco para a festa) e a celebração. Essa colaboração era uma forma de exercício da cidadania. Os jogos, especialmente as gincanas, têm um pouco disso. Do poder de construir coletivamente sem depender exclusivamente do governo ou da iniciativa privada.

Especificamente, o que a gincana tem de especial em relação a outras formas de engajamento?
Gouveia Jr.: Essa resposta é fácil. Quando dizemos a palavra “gincana”, automaticamente, as pessoas se transformam na melhor versão delas. O termo é associado com brincadeira e ação. Nessa hora, ninguém pensa “não sou bom o bastante”, “não sou criativo”, “não sirvo”, “não sei liderar”. A criatividade e o empreendedorismo simplesmente surgem. É quase como uma mágica. E o mais importante, trabalhando coletivamente. Temos então, reunidas, as melhores versões de diversas pessoas e que estão munidas do desejo de construir e colaborar.

Qual dica você tem para as pessoas que querem participar de uma gincana colaborativa e cidadã?
Gouveia Jr.: A primeira dica é: não faça nada sozinho, mesmo se você se considerar uma pessoa empreendedora e focada. O caminho fica mais fácil e divertido quando acompanhado. Segunda dica: sonhe muito grande, mas comece pequeno. Se o seu sonho é arborizar todo o seu bairro, comece plantando uma árvore bem bonita e de forma bem cuidadosa na porta da sua casa. Se alguém perguntar o que você está fazendo, conte o sonho inteiro, por mais louco que ele pareça. Assim, você já pode ganhar um ou dois vizinhos para ajudar. Divida esse sonho em passos a serem conquistados. Não demore muito para começar. Teve a ideia, já comece. Nada de “no mês que vem eu começo”. Por fim, divirta-se. O meu amigo Rodrigo Rubido, do Instituto Elos, sempre diz: “se você não for se divertir, vai ter que trabalhar”. Acho que essa frase resume tudo.

Na sua trajetória, alguma gincana lhe marcou?
Gouveia Jr.: Sempre é marcante ver que pessoas reunidas podem construir juntas uma creche, reformar uma praça ou uma casa, e sem recursos. Uma gincana que me marcou aconteceu em Santa Catarina, em 2012, após uma enchente do rio Itajaí. O grupo que jogou era composto por quase mil universitários, que reconstruíram escolas, pontes, até pista de motocross. Tudo o que tinha sido destruído e que a comunidade pediu. Isso em 12 cidades, totalizando 43 equipamentos construídos.

Como fica a questão da captação de recursos?
Gouveia Jr.: Pode parecer maluco, mas o desafio é: não há recursos ou financiamento prévio. Quando informamos que não há dinheiro e há um prazo, as pessoas começam a colocar em prática a criatividade. Lembram do vizinho que guarda madeira no quintal. Do amigo que é arquiteto e engenheiro. E tem um dia para fazer, então o grupo tem que correr. Posso afirmar que as pessoas constroem creches e praças mesmo sem recursos. E ainda fazem isso com alegria.

Quais jogos estão disponíveis hoje e como participar?
Gouveia Jr.: O Oasis, criado com o Instituto Elos, está disponível no site da instituição e possui sete passos: prepare-se; busque a abundância; escute; cuide de si, do outro e do sonho comum; acredite; divirta-se e construa. O passo “busque a abundância”, por exemplo, é para o jogador mudar o olhar e procurar as belezas e os recursos abundantes na comunidade em que está atuando. Temos a tendência de focar o olhar para a escassez e achar que estamos lá para “ajudar”. Não é isso.

O Guerreiros sem Armas, também do Instituto Elos, desafia jovens a planejarem e executarem projetos locais, envolvendo a sua comunidade.

Como percebemos que mesmo formando diversos facilitadores, não dávamos conta de atender a todos os pedidos no Brasil e do mundo, pensei em criar um jogo que pudesse se apropriar da tecnologia. Surgiu o “Play the Call”, que tem passos a serem executados e, toda vez que cumprido, as pessoas podem compartilhar nas redes sociais. Por fim, as pessoas de 19 a 30 anos reclamavam que não havia um jogo para elas. Elaborei o Jornada X, que tem os passos inspirados na saga do herói. No Facebook, há grupos que jogam a Jornada X em suas cidades.

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