{"id":974,"date":"1965-05-10T14:16:41","date_gmt":"1965-05-10T17:16:41","guid":{"rendered":"http:\/\/35.168.5.64\/edgardgouveia\/?p=974"},"modified":"2019-09-03T01:32:20","modified_gmt":"2019-09-03T04:32:20","slug":"museu-da-pessoa-empreendedor-socioambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/edgardgouveiajr.com.br\/en\/museu-da-pessoa-empreendedor-socioambiental\/","title":{"rendered":"Museu da pessoa, Empreendedor Socioambiental"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"http:\/\/www.museudapessoa.net\/pt\/conteudo\/pessoa\/edgard-gouveia-junior-19239\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Museu da Pessoa<\/a> por Museu da Pessoa<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-975\" src=\"http:\/\/edgardgouveiajr.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/museu-da-pessoa-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/edgardgouveiajr.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/museu-da-pessoa-300x169.jpg 300w, https:\/\/edgardgouveiajr.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/museu-da-pessoa-768x433.jpg 768w, https:\/\/edgardgouveiajr.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/museu-da-pessoa-1024x577.jpg 1024w, https:\/\/edgardgouveiajr.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/museu-da-pessoa.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Edgard Gouveia Junior foi procurado por estudantes da Faculdade de Arquitetura de Santos, que j\u00e1 sabiam de seu trabalho em algumas comunidades, para coordenar os trabalhos no Museu de Pesca. Deixou de lado uma bolsa de estudos na Alemanha para mergulhar em um projeto revolucion\u00e1rio: a reforma coletiva do museu, que mexeu com toda a cidade e despertou a aten\u00e7\u00e3o de estudantes de arquitetura da Am\u00e9rica Latina. O Instituto Elos nasceu do sucesso da empreitada. Re\u00fane estudantes de arquitetura que buscam lugares f\u00edsicos e socialmente degradados para, junto com as pessoas daquela comunidade, melhorar as condi\u00e7\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A base de todo o trabalho \u00e9 a alegria, a motiva\u00e7\u00e3o, o despertar das pessoas para liberar o potencial que todos t\u00eam de transformar a realidade em que vivem. O interesse pelo trabalho do Instituto Elos levou Edgard e a equipe a criar a Escola de Guerreiros sem Armas, com o objetivo de mostrar aos volunt\u00e1rios de todo o mundo, em um curso pr\u00e1tico, como \u00e9 poss\u00edvel transformar a realidade social e f\u00edsica de uma comunidade com poucos recursos e muita alegria e disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>HIST\u00d3RIA COMPLETA<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Transformar o mundo, o objetivo dos Guerreiros sem Armas<\/strong><\/h3>\n<p>Essa experi\u00eancia no Museu de Pesca foi muito louca. Conseguimos envolver toda a cidade. Praticamente todo mundo ia l\u00e1 dar opini\u00e3o, torcer para n\u00f3s. Enquanto trabalh\u00e1vamos no museu, percebemos que era um desafio empolgante e quer\u00edamos envolver o maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas. N\u00e3o era uma miss\u00e3o: salvar o museu mexia com as pessoas e todo mundo queria se envolver, nem precisava chamar. Como seria ent\u00e3o ampliar esse desafio? A Escola de Guerreiros sem Armas seria formada por essas pessoas. Percebemos que um dos obst\u00e1culos era a apatia, uma doen\u00e7a contempor\u00e2nea, que \u00e9 quase uma paralisia. Isso porque estamos envolvidos por tanta not\u00edcia ruim, que acabamos fixando a id\u00e9ia de que n\u00e3o somos capazes. O Guerreiro sem Armas \u00e9 aquele que vai trazer uma esperan\u00e7a, dizer assim: \u201cOlha, \u00e9 poss\u00edvel e vale a pena.\u201d E vale mesmo sonhar com utopias; n\u00e3o vamos dar comida \u00e0 \u00c1frica, vamos mudar a \u00c1frica. As pessoas v\u00e3o dan\u00e7ar cirandas, tocar tambores, ficar muito felizes.<\/p>\n<h3><strong>SINOPSE<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Transformando espa\u00e7os<\/strong><\/h3>\n<p>O forte v\u00ednculo de Edgard Gouveia J\u00fanior com Santos, sua cidade natal, foi bem retribu\u00eddo com o presente que deixou para a cidade. Segundo ele, \u00e9 a Santos e a sua fam\u00edlia que deve grande parte de sua forma\u00e7\u00e3o. Com o intuito de devolver alguma coisa para o lugar que havia lhe dado tanto, Edgard coordenou o projeto de restauro do Museu de Pesca que, naquele momento encontrava-se fechado e sem grandes perspectivas de mudan\u00e7as. A partir da experi\u00eancia coletiva de jovens arquitetos na transforma\u00e7\u00e3o do antigo e abandonado Museu de Pesca para um moderno e interativo, surgiram id\u00e9ias, contatos e novos projetos. Um deles \u00e9 a Escola dos Guerreiros sem Armas, criada a partir desta experi\u00eancia. S\u00f3 que desta vez a transforma\u00e7\u00e3o de lugares teria que passar por um desafio maior: lutar contra a apatia e descren\u00e7a de vidas adormecidas entre espa\u00e7os deteriorados e esquecidos de centros urbanos e rurais. \u00c9 nesta atua\u00e7\u00e3o que Edgard mostra uma maneira iluminada de transformar pessoas para transformar espa\u00e7os, alimentando e estimulando sonhos coletivos que n\u00e3o se sentiam mais no direito de ter vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>HIST\u00d3RIA DE VIDA<\/strong><\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Edgard, para come\u00e7ar nossa entrevista vou perguntar de novo pra voc\u00ea. O seu nome completo, o local e a data de nascimento.<\/p>\n<p>R \u2013 Meu nome completo \u00e9 Edgard Gouveia Junior. Eu nasci na cidade de Santos, S\u00e3o Paulo. E eu nasci no dia 10 de maio de 1965.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 E o nome dos seus pais? O que eles faziam?<\/p>\n<p>R \u2013 Meu pai chama Edgard Gouveia. Ele \u00e9 desenhista t\u00e9cnico. E minha m\u00e3e chama Carmelita Marques Gouveia, ela \u00e9 dom\u00e9stica e massagista.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Edgard, voc\u00ea cresceu em Santos?<\/p>\n<p>R \u2013 Cresci em Santos, at\u00e9 12 anos. A\u00ed mudei dois anos, depois voltei para Santos.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 E como \u00e9 crescer na praia? Voc\u00ea cresceu na praia? Que bairro voc\u00ea morava?<\/p>\n<p>R \u2013 Eu morava no Boqueir\u00e3o, pr\u00f3ximo \u00e0 praia. Fugia muito, eu sa\u00eda de fininho, n\u00e3o achava que era fugir. Ia muito pra praia, caminhar muito na praia, brincava muito de pegar peixinho no canal. Santos \u00e9 todo dividido por canais, n\u00e9? Ent\u00e3o tinha muito peixinho, Guar\u00fa, adorava pegar peixinho. A gente criava peixe em aqu\u00e1rio, ent\u00e3o, n\u00e9? Um pouquinho da minha vida era assim: pr\u00f3ximo ao mar, caminhadas pr\u00f3ximo da \u00e1gua e muita rela\u00e7\u00e3o com os peixes assim. Era gostoso<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Voc\u00ea tem irm\u00e3os?<\/p>\n<p>R \u2013 Tenho duas irm\u00e3s. Uma mais velha: Ta\u00eds, e uma mais nova, chama Lia.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 E como era o cotidiano da sua casa na inf\u00e2ncia?<\/p>\n<p>R \u2013 Hum. Bom, ia na escola de manh\u00e3. Eu adorava ir na escola era muito legal. \u00c0 tarde, eu geralmente, eu pegava patins, eu ia pra um centro comercial que tem perto da minha casa, um pequeno \u201cshopping\u201d. E tinha uma loja de animais, eu adorava animais. Ent\u00e3o ia muito pra ver essa loja de animais, ajudar o dono a cuidar dos animais. E passear por esse centro. Ent\u00e3o era muito assim: caminhada, patins; caminhada na praia, muita caminhada na praia. Adorava fazer caminhada na praia principalmente depois de chuva assim, pra pegar peda\u00e7os de troncos velhos, caramujos. Eu adorava fazer isso. E pegar peixinhos do canal. E cuidar dos meus peixes assim. E acho que; Ah, na maior parte do tempo tamb\u00e9m desenhando. Eu tinha um mundo muito introspectivo. Ent\u00e3o pegava uma folha de papel branco, ficava desenhando horas e horas e horas. Minha vida era isso: era desenhar, cuidar dos peixes, os animais e passear no Super Centro.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Voc\u00ea tinha turmas de amigos?<\/p>\n<p>R \u2013 Eu tinha sempre; eu nunca tive muita turma de amigos. Tinha a turma de amigos do pr\u00e9dio. Ent\u00e3o a gente ficava jogando xadrez, queimada. Ent\u00e3o descia \u201cpra baixo\u201d do pr\u00e9dio; eu morava num apartamento de tr\u00eas andares, um pr\u00e9dio de tr\u00eas andares. Ent\u00e3o tinha brincadeira l\u00e1 de baixo: pega-pega, pique. Mas geralmente, assim, eu tinha um amigo, dois amigos mais pr\u00f3ximos. Mas geralmente um amigo. Em etapas diferentes da minha vida. E era muito essa coisa de sair, pegar peixinhos no canal; na praia eu sempre gostei de ir sozinho, n\u00e3o ia com ningu\u00e9m. E ia pro Super Centro que \u00e9 esse centro comercial. Ent\u00e3o, caminhar por l\u00e1, patinar. Ent\u00e3o os amigos; quando tinha um amigo era nessa linha assim. Ou nas f\u00e9rias, a\u00ed nas f\u00e9rias sim. Nas f\u00e9rias a gente viajava pra lugares bem distantes. E a\u00ed tinha um monte de amigos l\u00e1. Ir pro meio do mato, ir pra cachoeira, ir pro rio. L\u00e1 j\u00e1 tinha bando de amigos. Mas bando de amigos mesmo s\u00f3 fora, s\u00f3 nas f\u00e9rias.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Mas pegar peixinho no canal, era na sa\u00edda do canal? Voc\u00ea pegava e fazia um aqu\u00e1rio na sua casa?<\/p>\n<p>R \u2013 \u00c9 o canal ficava bem na frente da minha casa. Santos \u00e9 uma ilha toda dividida por canais, n\u00e9? \u00c9 bem peculiar. Santos \u00e9 bem conhecido por esses canais. Ent\u00e3o, e muitos peixes v\u00e3o sendo criados ali, os peixes s\u00e3o Guar\u00fas, Lebistes, s\u00e3o algumas esp\u00e9cies mais comuns e algumas coloridas. Ent\u00e3o, tinha um esquema de pegar com umas latinhas, voc\u00ea faz latinha de leite Ninho assim, leite em p\u00f3. Ent\u00e3o voc\u00ea fura o fundo dela, amarra os \u201cbarbantinhos\u201d e voc\u00ea bota um pedacinho de p\u00e3o e joga dentro da \u00e1gua. Ent\u00e3o os peixinhos v\u00e3o pra dentro, voc\u00ea cata como se fosse uma peneira, \u00e9 uma armadilha comum, as crian\u00e7as brincam disso. A\u00ed voc\u00ea\u201d pega; s\u00f3 que geralmente as crian\u00e7as pegam, brincam e depois \u201csolta\u201d de novo, ou leva pra casa e os peixes morrem, n\u00e9? \u00c9 um peixe que ele \u00e9 bem fr\u00e1gil pra trazer pro aqu\u00e1rio. Mas eu tinha umas t\u00e9cnicas muito boas de cuidar deles. Ent\u00e3o eles proliferavam em casa. Ficava muito feliz<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Que t\u00e9cnicas eram essas?<\/p>\n<p>R \u2013 Ah, tinha de tratamento da \u00e1gua. Ent\u00e3o, tirar o cloro, n\u00e9? Ent\u00e3o deixava descansando no escuro pra tirar o cloro. Tinham umas t\u00e9cnicas que esse dono da; seu Guimar\u00e3es \u2013 lembrei \u2013 agora o nome dele. Esse dono \u00e9 um senhor velhinho assim, parecia o Gepeto assim, do Pin\u00f3quio. Ele adorava animais, ent\u00e3o ele ia me ensinando algumas t\u00e9cnicas de cuidar dos peixes e eu trazia isso pros Lebistes. Pros peixinhos de canal. Que eles n\u00e3o duram muito assim, quando voc\u00ea tira do canal. E os meus duravam todos.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Voc\u00ea falou essa coisa dos canais, que Santos \u00e9 uma ilha cortada por canais. Qual \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o desses canais exatamente?<\/p>\n<p>R \u2013 A fun\u00e7\u00e3o dos canais \u00e9 um projeto do Saturnino de Brito, que \u00e9 um engenheiro-sanitarista muito conhecido aqui no Brasil e fez muitos projetos fora tamb\u00e9m do Brasil. E ele \u00e9 um projeto de saneamento na verdade. De; Santos \u00e9 uma terra muito \u00famida e tinha muita doen\u00e7a no in\u00edcio do s\u00e9culo passado. Ent\u00e3o ele foi construindo esses canais que iam fazer a quest\u00e3o da drenagem, que eles v\u00e3o drenando a \u00e1gua do terreno. Terreno que eram antigos charcos, p\u00e2ntanos. Ent\u00e3o drenava essa \u00e1gua, \u201cfoi\u201d aterrados esses terrenos pra poder expandir a cidade. A cidade antigamente ficava concentrada no centro hist\u00f3rico, \u201cpr\u00f3ximo\u201d dos morros. Ent\u00e3o lugar mais seco e depois foi crescendo pro mar. Acompanhando uma expans\u00e3o europ\u00e9ia de uso das praias, de balneabilidade. Ent\u00e3o eles foram esses espa\u00e7os, a partir de secar esses terrenos e aterrar. A cidade foi crescendo pra l\u00e1. Pra isso ser poss\u00edvel e n\u00e3o acarretar doen\u00e7as com muita umidade foi necess\u00e1rio fazer os canais.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 E Santos \u00e9 uma cidade portu\u00e1ria e de escoamento de caf\u00e9. Tem essa imagem da sua inf\u00e2ncia? O porto?<\/p>\n<p>R \u2013 N\u00e3o, na minha inf\u00e2ncia a imagem j\u00e1 foi assim, o auge do porto foi um pouco antes da minha inf\u00e2ncia. At\u00e9 hoje ainda tem muito caf\u00e9 escoando por l\u00e1, mas a fase \u00e1urea do caf\u00e9 foi antes. E, se bem que a economia ainda gira bastante em cima do porto Mas a minha fase, a minha inf\u00e2ncia foi vivenciada na fase da expans\u00e3o da balneabilidade. Ent\u00e3o aquela fase de muita gente descendo de S\u00e3o Paulo, construindo muitos pr\u00e9dios. Ent\u00e3o muitas fam\u00edlias t\u00eam aquela coisa; todo final de semana a cidade triplicava o n\u00famero de pessoas com gente que vinha de fora. Tamb\u00e9m uma lembran\u00e7a muito voltada \u00e0 praia, ao mar. Ent\u00e3o meus pais, todo final de semana eles faziam a gente ir pra praia, jogando v\u00f4lei, jogando frescobol, fazendo castelinho de areia, era essa nossa rotina. Parquinho \u00e0 noite.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 E a sua escola? Onde voc\u00ea estudou?<\/p>\n<p>R \u2013 Estudei na escola; no prim\u00e1rio foi uma escola que chama Vila Rica. Ali\u00e1s tinha o \u201cprezinho\u201d que \u2013 eu lembro \u2013 o nome tamb\u00e9m, chama Leonor Mendes de Barros. Era um jardim de inf\u00e2ncia p\u00fablico, municipal. Que \u00e9 o melhor at\u00e9 hoje, ele \u00e9 lindo, tinha um \u201cbondezinho\u201d antigo, tinha uma seringueira que eu adorava subir; eu adorava subir em \u00e1rvore, sabe? Fazia o recreio, pegava meu \u201clanchinho\u201d, subia na \u00e1rvore, ficava l\u00e1 em cima.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Sozinho?<\/p>\n<p>R \u2013 Sozinho. Eu adorava ficar. Ou com algu\u00e9m, mas que tivesse coragem de subir. Mas eu adorava subir em cima dessa \u00e1rvore, ou nesse bonde. Esse lugar era muito gostoso, era muito incentivado \u00e0 arte. Adorava pintar e desenhar, podia ficar dias e dias fazendo isso. E eles estimulavam bastante, tinha muito material pra isso. \u201cPra\u201d ser uma escola municipal, eles eram muito bons. E dali, todo final de ano tinha uma exposi\u00e7\u00e3o de artes, trabalhos dos alunos. E uma diretora de uma escola particular em Santos, uma escola progressiva em Santos, viu os meus desenhos e adorou os desenhos, me deu uma bolsa. Ofereceu pra minha m\u00e3e uma bolsa de estudos num col\u00e9gio particular, na parte do prim\u00e1rio. Que meus pais n\u00e3o teriam condi\u00e7\u00f5es de pagar. E essa escola foi a escola chamada Vila Rica. E que era uma del\u00edcia mesmo mesmo, uma escola meio assim alternativa. N\u00e3o existe mais, atualmente. Mas eles incentivavam muito, muito a arte, esporte, ent\u00e3o tinha horta. Coisas que em uma escola p\u00fablica eu n\u00e3o teria encontrado. Ent\u00e3o essa escola era deliciosa Tinha umas professoras de arte que eu adorava. Os amigos sentiam; os estudantes eram muito ricos, n\u00e9? Tinha muita gente; \u2013 eu n\u00e3o sabia disso \u2013 n\u00e3o dava conta na \u00e9poca. Minha m\u00e3e quando eu fui pra l\u00e1 ficou muito preocupada com isso. Como eles iam me tratar. Eu era o \u00fanico negro da escola. Mas era super bom, porque todas f\u00e9rias tinha convite pra ir pra fazenda de um, cidade do outro, Campos do Jord\u00e3o. Ent\u00e3o muita coisa que eu n\u00e3o teria acesso normalmente tive por conta desse, de est\u00e1 nessa escola. Essas viagens gostosas.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Ampliou assim o mundo?<\/p>\n<p>R \u2013 Ampliou o mundo; eu n\u00e3o dava; pra crian\u00e7a, achava que era a coisa mais normal do mundo, n\u00e9? Mas com certeza ampliou meu repert\u00f3rio, ampliou a possibilidade de encontros, meus contatos, n\u00e9? S\u00e3o pessoas at\u00e9 hoje que tenho contatos, s\u00e3o pr\u00f3ximas. Ent\u00e3o foi; acho que principalmente a quest\u00e3o do n\u00edvel de ensino assim, quanto eles estimulavam a crian\u00e7a a sonhar, assim a explorar. Ent\u00e3o, ou seja, era uma escola pequena&#8230;<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Tinha um m\u00e9todo diferente?<\/p>\n<p>R \u2013 Eles tinham \u2013 n\u00e3o sei \u2013 qual o m\u00e9todo at\u00e9 hoje que eles trabalhavam. Nunca, n\u00e3o tive a curiosidade, pesquisei tanto a Pedagogia, n\u00e3o tive a curiosidade de perguntar. Mas era muito assim, por exemplo, no segundo, terceiro ano de prim\u00e1rio a gente j\u00e1 fazia a trigonometria. Ent\u00e3o assim, sabe, a partir de constru\u00e7\u00e3o de s\u00f3lido, de cubo, hex\u00e1gono. Ent\u00e3o a gente sabia os nomes, sabia os \u00e2ngulos. Ent\u00e3o \u00e9 uma coisa muito de constru\u00e7\u00e3o. \u2013 N\u00e3o sei \u2013 se era construtivista a escola. Agora que voc\u00ea est\u00e1 falando t\u00f4 at\u00e9 com a curiosidade de buscar. Mas tinha muito esse lado de explora\u00e7\u00e3o, essa coisa de ter a horta, ter flores, tinha roseira. Ent\u00e3o essa coisa, roseira cheia de espinhos, eles n\u00e3o tinham medo. Voc\u00ea tinha que aprender a lidar com aquilo, n\u00e9? Mas pra mim, obviamente, a quest\u00e3o era do esporte, tinha um professor de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica fant\u00e1stico, o Juarez \u2013 lembrei agora \u2013 o nome dele, e uma professora de Artes, a dona Elza que eu amava tamb\u00e9m. Ent\u00e3o levava pra exposi\u00e7\u00e3o; sabe? Est\u00edmulo mesmo. Ent\u00e3o se eu n\u00e3o tinha aula, se tinha um intervalo, uma hora vaga, a sala de aula estava sempre aberta. Ent\u00e3o as coisas de argila, eu era apaixonado por fazer escultura, voc\u00ea tinha acesso a tudo. Isso era fant\u00e1stico<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 E o esporte. O que voc\u00ea praticava?<\/p>\n<p>R \u2013 L\u00e1 a minha paix\u00e3o era handebol. Quando eu conheci handebol; eu nunca fui muito f\u00e3 de futebol. Mas eu joguei porque todo mundo jogava, ent\u00e3o ia batendo papo; j\u00e1 era muito alto, n\u00e9? Mas eu n\u00e3o curtia muito futebol. Ent\u00e3o eu gostava muito de xadrez essa \u00e9poca, t\u00eanis de mesa. Eu jogava muito pingue-pongue. A\u00ed brincadeira de crian\u00e7a: figurinha, bafo, essas coisas que eu gostava muito. Mas eu lembro, a minha imagem no local, \u00e9 todo recreio jogando muito xadrez. Tinha uma turminha que era viciada em xadrez. Quando tinha handebol, largava tudo e fazia handebol. E o esporte ainda nessa \u00e9poca era isso. Fora dali eu fazia um pouco de atletismo. Come\u00e7ava assim, eu ia inventando coisas, n\u00e9? Meu pai tinha um monte, tinha uma enciclop\u00e9dia enorme, tinha uma biblioteca muito grande na sala. Meu pai sempre gostou muito de livros, n\u00e9? N\u00e3o teve uma forma\u00e7\u00e3o muito grande no col\u00e9gio, formal, mas ele lia muito e comprava muitos livros. Ent\u00e3o tinha v\u00e1rias bibliotecas, v\u00e1rias enciclop\u00e9dias, ficava lendo, esportes diferentes que tinham no mundo ou que tinham no Brasil e ficava inventando as regras. Ent\u00e3o eu sempre gostei muito de esporte tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 E educa\u00e7\u00e3o religiosa? Teve alguma?<\/p>\n<p>R \u2013 Sim, minha fam\u00edlia inteira era Testemunha de Jeov\u00e1, \u00e9 ainda at\u00e9 hoje. Nossa forma\u00e7\u00e3o assim, o cotidiano da B\u00edblia pr\u00f3xima, de conversar sobre isso, de orar nas refei\u00e7\u00f5es. \u2013 Acho \u2013 que influenciou bastante a minha forma\u00e7\u00e3o. Assim, uma quest\u00e3o mais humanista, de v\u00ednculo assim com sagrado, foi muito legal. E a Testemunha de Jeov\u00e1, eles tem uma liga\u00e7\u00e3o muito concreta, a espiritualidade na vida cotidiana, nas rela\u00e7\u00f5es com as outras pessoas, com os teus vizinhos, com a tua fam\u00edlia, de cuidado, no casamento, pai e filho. Eu acho que isso; a gente j\u00e1 tinha uma fam\u00edlia muito estruturada, tive muita sorte assim. Nunca vi meu pai e minha m\u00e3e brigando assim, nem levantar a voz um pro outro. Hoje em dia reconhe\u00e7o que quanto isso foi importante pra nossa forma\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 chocante ver em outras fam\u00edlias que isso, \u00e0s vezes, est\u00e1 no cotidiano o filho ver o pai brigando, a m\u00e3e infeliz. A gente n\u00e3o tinha; se \u00e9 que eles brigaram a gente nunca soube. Nem discuss\u00e3o. Nem discuss\u00e3o. Era tudo um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Tinha uma pessoa que influenciou a sua personalidade? Al\u00e9m desses dois professores que voc\u00ea falou? Alguma pessoa que voc\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>R \u2013 Uma pessoa? Diretamente assim um \u00eddolo, talvez uma coisa, n\u00e3o tinha. Com certeza meu pai e minha m\u00e3e. Bom isso todo mundo, n\u00e9? Minha m\u00e3e assim essa rela\u00e7\u00e3o que ela tinha de cuidar dos outros, n\u00e9? A sensa\u00e7\u00e3o que a gente tinha \u00e9 que ela cuidava mais dos outros do que at\u00e9 da gente assim. Ela garantia que em casa \u201ctava\u201d tudo garantido. Ela sempre trabalhou fora. Ent\u00e3o vendia filtros, vendia \u201ctupperware\u201d que era uma, aquela coisa, uma fase na \u00e9poca. At\u00e9 que finalmente ela encontrou a massagem, era o dom dela, ent\u00e3o ficou na massagem. Mas antes ela sempre fazia; acho que quando eu era beb\u00ea tinha uma pens\u00e3o. Minha m\u00e3e cozinhava muito bem. Mas acho que a influ\u00eancia da minha m\u00e3e; todo mundo fala que eu sou muito parecido com a minha m\u00e3e. Ent\u00e3o essa coisa da preocupa\u00e7\u00e3o com o outro, com o pr\u00f3ximo, de se despojar, de dar o que ela tem, tirar da geladeira, tirar da gente e dar pra quem est\u00e1 precisando. Ent\u00e3o isso com certeza assim, ou gen\u00e9tico ou de observa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m tinha essa coisa de cuidar dos outros. A fam\u00edlia inteira tem isso: de se preocupar primeiro com outros que com a gente. O meu pai assim n\u00e3o foi uma influ\u00eancia direta de ficar copiando ele, n\u00e9? De assim \u00e9 meu \u00eddolo, n\u00e9? Como foi minha m\u00e3e. Mas essa influ\u00eancia indireta assim, acho que a atmosfera que eles deixaram em casa foi muito contagiante pra todos os filhos, pros tr\u00eas filhos. Do meu pai acho que essa hist\u00f3ria de ler, essa curiosidade assim, de&#8230; Acho que o fato de ele ter guardado aquela enciclop\u00e9dia inteira ali, era uma coisa assim, sabe? E deixava a gente mexer. Ele n\u00e3o tinha problema com livro nenhum. Ent\u00e3o quando eu era beb\u00ea gostava muito de desenhar, ent\u00e3o tem um monte de enciclop\u00e9dias que as primeiras p\u00e1ginas brancas dos livros eu desenhava todas. E nunca reclamaram, nunca perturbaram. Meu pai \u00e9 cal\u00edgrafo tamb\u00e9m. Ent\u00e3o ele trabalhava o dia inteiro, e a noite ficava de madrugada fazendo caligrafia, que \u00e9 quando ele ganhava mais dinheiro, n\u00e9? Diplomas&#8230; Ent\u00e3o \u2013 eu lembro \u2013 eu chegava a ficar impressionado, hoje eu fico impressionado porque eu sou arquiteto e vejo o cuidado que voc\u00ea tem que ter numa prancheta, n\u00e9? Antes n\u00e3o tinha computador pra voc\u00ea desenhar no computador. Ent\u00e3o qualquer coisinha que tocasse voc\u00ea borrava o teu desenho inteiro. E ele deixava a gente chegar perto da prancheta, a gente ver; sempre explicava dez vezes a mesma coisa. \u201cQue \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1 fazendo pai?\u201d \u201cQue \u00e9 que \u00e9 isso pai?\u201d Assim acho que esse carinho assim, essa amorosidade que meu pai e minha m\u00e3e tiveram; \u2013 acho \u2013 que foi esse clima de seguran\u00e7a dentro de casa, de garantia afetiva foi a grande influ\u00eancia. Pessoas marcantes e de muito tempo? N\u00e3o tem pessoas de; foram pontuais de um ano, outro; acho que esse; e muito pelo, eu n\u00e3o tinha uma pessoa que influenciou diretamente que eu lembre, diretamente em mim assim, de dar conselho, de eu pedir conselho, de eu buscar. Mas eu sempre tive um foco muito em mim mesmo assim. Existia um mundo interior, assim on\u00edrico muito forte. Ent\u00e3o o meu mundo real era o meu mundo de sonhos. Eu viajava pra onde eu quisesse. Eu s\u00f3 criava mundos, eu desenhava, materializava isso em desenhos, esculturas, com os peixes. Ent\u00e3o tinha um mundo; ia pra praia ent\u00e3o eu imaginava que \u201ctava\u201d viajando pra todos os continentes. Essa coisa tinha, esse Mundo Animal que \u00e9 aquele, \u00e9 um programa que tinha na televis\u00e3o. Ah, aquilo Eu vi, n\u00e3o tinha quem me tirasse da frente da televis\u00e3o naquele hor\u00e1rio. Sentava, grudava na frente da televis\u00e3o, e viajava tudo quanto \u00e9 continente, tudo quanto \u00e9&#8230;Tinha aquela enciclop\u00e9dia Os Bichos tamb\u00e9m, ent\u00e3o eu sabia tudo de animais. Mas eu tinha um mundo muito meu assim, n\u00e3o era sozinho, mas era solit\u00e1rio. Ent\u00e3o no sentido assim: n\u00e3o tinha tristeza, mas era um mundo gigante. Ent\u00e3o, eu ficava explorando sozinho. Ficava sonhando eu sozinho andando pelas florestas. Eu tinha; n\u00e3o tinha uma coisa assim de ter o bando, n\u00e9? Se algu\u00e9m quisesse, ir n\u00e3o ficava esperando algu\u00e9m querer ir. Eu j\u00e1 fui Se quiser vem atr\u00e1s, e n\u00e3o atrapalha.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Edgard, voc\u00ea tinha esse: O que voc\u00ea queria ser quando crescer? Ou sua fam\u00edlia tinha alguma expectativa que voc\u00ea seguisse alguma carreira?<\/p>\n<p>R \u2013 Minha fam\u00edlia n\u00e3o, se tinha esconderam direitinho. Isso \u00e9 muito legal tamb\u00e9m. N\u00e3o tinham esse objetivo que fosse m\u00e9dico, fosse engenheiro, fosse&#8230; Eles tinham; meu pai eu lembro um pouquinho de que ele tinha uma; ele n\u00e3o falava isso t\u00e3o claramente, mas ele tinha uma aspira\u00e7\u00e3o que a gente fosse independente, os tr\u00eas. Ele; meu pai tinha que trabalhar muito, n\u00e9? Ele come\u00e7ou trabalhando na rua, abrindo rua, picareta mesmo assim. E ele desenhava bem e um dia um chefe dele, um engenheiro viu; ele trabalhava na Light. Companhia Light na \u00e9poca, que era a Eletropaulo da \u00e9poca. Dos ingleses. E uma vez na hora do almo\u00e7o ele estava desenhando. Ele sempre foi muito autodidata, e buscava sua pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o, fez um curso por correspond\u00eancia de desenho. E ele, o cara pegou ele desenhando e falou: \u201cP\u00f4, mas voc\u00ea com esse talento, voc\u00ea n\u00e3o pode est\u00e1 aqui na rua abrindo vala, n\u00e9?\u201d E abriu uma vaga pra ele no escrit\u00f3rio de desenho. E a\u00ed foi que ele fez a carreira dele, n\u00e9? Entrou na Light. Mas sem um curso t\u00e9cnico, ent\u00e3o ele n\u00e3o p\u00f4de ascender muito, entrar em cargos, porque segundo ele e segundo os amigos dele, era o melhor desenhista disparado. Melhor que os engenheiros que trabalhavam com ele na \u00e9poca. Todo dia eles ficavam pedindo dicas pra ele, n\u00e9? Mas ele nunca p\u00f4de ascender de cargo, porque n\u00e3o tinha forma\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ele nunca me falou; eu n\u00e3o lembro dele falando assim: Oh, voc\u00ea tem que fazer uma universidade. Mas ele tinha uma vontade que a gente fosse independente, que a gente n\u00e3o ficasse dependentes de; ele tinha uma preocupa\u00e7\u00e3o que a gente ficasse dependendo muito do trabalho bra\u00e7al, sabe? De ter que trabalhar durante o dia e durante a noite, que nem ele fez pra nos sustentar. Tinha isso. Eu mesmo, obviamente, tinha um sonho, imaginava que eu ia ser veterin\u00e1rio, cen\u00f3grafo. \u2013 N\u00e3o lembro \u2013 assim no sonho t\u00e3o forte, lembro que eu gostava muito do Jacques Cousteau. Assim de expedi\u00e7\u00f5es. Mas eu era muito vol\u00favel assim, as vontades eram; \u00e0s vezes, eu queria ser alpinista porque eu queria nos programas o pessoal&#8230; Ent\u00e3o, rapidamente, eu entendi que eu queria fazer tudo. Eu queria fazer tudo aquilo assim. Eu queria fazer aventuras. Queria mar, queria deserto, queria espa\u00e7o. Ent\u00e3o fui ficando solto tamb\u00e9m nisso. E acabei escolhendo Arquitetura por conta disso. Porque foi Arquitetura assim: quando eu estava no curso t\u00e9cnico, no colegial que chamava na \u00e9poca, eu comecei a pensar, escolher o que \u201cque\u201d eu ia fazer. Eu saquei que eu ia poder fazer faculdade, ia conseguir uma bolsa. E meu pai n\u00e3o ia ter condi\u00e7\u00f5es de pagar, mas eu j\u00e1, nessa vez j\u00e1 tinha tido bolsa a minha forma\u00e7\u00e3o inteira. No prim\u00e1rio eu tive, depois no gin\u00e1sio eu tive outra por causa do desenho. Depois no colegial j\u00e1 foi por causa do esporte. Eu j\u00e1 jogava voleibol. E ganhei bolsa no melhor col\u00e9gio de Santos na \u00e9poca. Ent\u00e3o j\u00e1 imaginava que eu fosse continuar conseguindo, j\u00e1 tinha essa tranq\u00fcilidade de que eu ia me dar bem, de uma forma ou de outra. Ent\u00e3o comecei a pensar nisso e fui assistir aulas em universidade. Tinha uma professora muito legal de matem\u00e1tica que ela falou: \u201cPor que voc\u00ea n\u00e3o vai assistir umas aulas?\u201d Eu nem sabia que tinha essa possibilidade: entrar na faculdade e assistir aula. Ent\u00e3o comecei a assistir em tudo quanto \u00e9 lugar. E ia vendo assim que n\u00e3o era aquela maravilha que eu imaginava. N\u00e3o ia ser que nem as aventuras que eu ia fazer, que eu escolhia o que queria fazer, e s\u00f3 o melhor que queria fazer.L\u00e1 tinha muita disciplina chata, n\u00e9? Ent\u00e3o j\u00e1 comecei a entender que a faculdade n\u00e3o ia ser aquela maravilha toda. Ent\u00e3o falei: \u201cVou ter que escolher bem, n\u00e9?\u201d e no final, eu fazia um curso t\u00e9cnico de desenho t\u00e9cnico, n\u00e9, desenho de Arquitetura e podia; todo mundo escolhia ou Engenharia ou Arquitetura. Fui assistir umas aulas de Engenharia, entendi logo que n\u00e3o era aquilo. E quando eu entrei na faculdade de Arquitetura falei: \u201cAh, acho que aqui eu ag\u00fcento cinco anos.\u201d Meu tema era: \u201cOnde eu vou ag\u00fcentar ficar cinco anos?\u201d Porque eu j\u00e1 sabia que uma parte do programa ia ser o que eu queria. E uma grande parte n\u00e3o ia ser o que d\u00e1 prazer, n\u00e9? Ent\u00e3o fiquei pensando onde que eu ag\u00fcento. E na faculdade de Arquitetura, minha faculdade era espetacular. Ent\u00e3o cheguei j\u00e1 \u201ctava\u201d tendo teatro, uma performance enorme, que eu falei: \u201cMas de arquitetura?\u201d Eu j\u00e1 fazia desenho t\u00e9cnico, projetava casa no colegial. A\u00ed uma coisa: \u201cMas o que isso a\u00ed tem a ver com edif\u00edcio?\u201d Ent\u00e3o tinha um pessoal pintando aqui, um pessoal fazendo teatro ali. E as paredes todas pintadas Voc\u00ea chegava na faculdade assim, o ch\u00e3o da faculdade o pessoal deixava recados: \u201cEstou no bar&#8230;\u201d \u201cMaria, estou no bar esperando voc\u00ea.\u201d A\u00ed outro assim: \u201cO seu pilantra j\u00e1 estou meia-hora te esperando.\u201d \u201cTo no ateli\u00ea.\u201d Ent\u00e3o assim voc\u00ea chegar na escola j\u00e1 era uma profus\u00e3o de; falei: \u201cAh, aqui tem vida.\u201d \u201cIsso aqui eu acho que eu ag\u00fcento sim.\u201d<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Aonde era a faculdade?<\/p>\n<p>R \u2013 Em Santos. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) Santos. Era muito conhecida assim. O pessoal muito conhecido no Brasil inteiro assim. Um pessoal muito criativo. Uma faculdade pequena. Era vespertina, tem 300 a 400 estudantes. Ent\u00e3o naquela \u00e9poca l\u00e1 o vespertino era \u00e0 tarde. \u00c9 uma comunidade muito unida, ent\u00e3o o pessoal de primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto ano s\u00e3o muito pr\u00f3ximos, saem juntos, fazem festa. Como est\u00e1 em Santos, n\u00e9? Tem muita gente do interior, S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo capital. Ent\u00e3o s\u00e3o aqueles filhos que os pais tem casa e apartamento, ent\u00e3o os filhos v\u00eam morar sozinhos, vem; Aproveita aquela vida que eles querem pra surfar, pra passear, pra acampar. Ent\u00e3o tinha esse clima muito tamb\u00e9m de praia, assim de comunidade, muita liberdade, ent\u00e3o andava de bermuda, \u201cshort\u201d, chinelo. Os professores muito abertos, n\u00e9, iam beber com a gente no bar, conversando. Ent\u00e3o, na verdade ganham pouco, n\u00e9?Muitos deles ganham pouco em Santos, mas v\u00e3o correndo pelo prazer de est\u00e1 l\u00e1. A atmosfera em Santos \u00e9 uma comunidade mesmo. O pessoal fica muito criativo com isso. Um ajuda o outro. Ent\u00e3o, pra minha forma\u00e7\u00e3o foi espetacular assim, abriu muito. O que eu era de muito fechado, introspectivo de crian\u00e7a assim foi uma vida muito; ent\u00e3o meus sonhos, on\u00edricos mesmo, introspec\u00e7\u00f5es, as florestas. Essa coisa de eu gostar de est\u00e1 sozinho se abriu um pouquinho com o esporte, ou at\u00e9 bastante com o esporte. O v\u00f4lei principalmente, n\u00e9? E, e depois a faculdade acabou de abrir assim, a\u00ed fui pro social mesmo. Fui pro mundo.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 S\u00f3 voltando um pouco. Como surge o v\u00f4lei na sua vida? Voc\u00ea \u00e9 super alto. Teoricamente as pessoas falam assim: \u201cN\u00e3o, vai jogar basquete.\u201d<\/p>\n<p>R \u2013 At\u00e9 hoje o pessoal pergunta assim: \u201cAh, voc\u00ea joga basquete?\u201d \u201cN\u00e3o, v\u00f4lei.\u201d Eu joguei basquete tamb\u00e9m, mas com 13, 14 anos. Eu gostava muito de esporte. E n\u00e3o sei como \u00e9 que foi essa; engra\u00e7ado porque quando eu adorava xadrez e isso era meio estranho. N\u00e3o \u00e9 estranho. Nada estranho Mas n\u00e3o era muito comum, n\u00e9? Ou voc\u00ea gosta de uma coisa muito mais parada, ou voc\u00ea gosta de uma coisa mais&#8230; Eu gostava de tudo. Ent\u00e3o queria explorar tudo assim. E \u2013 lembro \u2013 que tinha muita rela\u00e7\u00e3o com essa coisa de enciclop\u00e9dia que eu ficava lendo assim. \u201cAh, beisebol.\u201d \u201cComo se consegue beisebol?\u201d Eu queria coisas novas e criar coisa nova, fazer tudo diferente, at\u00e9 hoje. E o v\u00f4lei eu deixei muito final, meu pai jogava v\u00f4lei. Ent\u00e3o eu tinha alguma certa rejei\u00e7\u00e3o assim: \u201cAh, o meu pai jogava, eu n\u00e3o vou fazer isso.\u201d \u201cQuero fazer uma coisa diferente.\u201d E todo mundo jogava futebol. Futebol assim, acho que por todo mundo fazer, n\u00e9? Eu queria fazer coisas diferentes. Tinha vontade de explorar outras coisa. Ent\u00e3o fiz tudo, fiz t\u00eanis-de-mesa, fiz xadrez, fiz um pouquinho de jud\u00f4, fui fazer atletismo. Atletismo assim, o esporte que eu mais gostava de ver: as Olimp\u00edadas o Pan-Americano, eu grudava na televis\u00e3o, era atletismo. Ent\u00e3o tinha um atletismo bom em Santos, a cidade tamb\u00e9m. S\u00f3 que era longe. E eu nunca ficava pedindo muito isso pros meus pais: \u201cAh, me leva na nata\u00e7\u00e3o.\u201d Era ou eu ir sozinho, me virava. Quando eles descobriam onde eu \u201ctava\u201d fazendo. Ou eu n\u00e3o fazia assim, ficava criando uma coisa em casa. E o v\u00f4lei, ele veio, foi engra\u00e7ado: Meu pai se aposentou e sempre teve o sonho de morar no interior, de criar galinha. Quer dizer, um sonho meio; e n\u00f3s fomos morar l\u00e1 pra uma cidade que \u00e9 interior-litoral. \u00c9 pertinho de Iguape, chama Pariq\u00fcera-A\u00e7u, perto de Iguape, de Registro.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Pariq\u00fcera-A\u00e7u?<\/p>\n<p>R \u2013 Pariq\u00fcera-A\u00e7u. Covo grande a tradu\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ela \u00e9 considerada litoral, mas n\u00e3o tem praia. Ent\u00e3o ela \u00e9 uma hora do mar assim perto. Entre Iguape e Registro, no litoral sul de S\u00e3o Paulo. Ent\u00e3o fomos morar l\u00e1. Ent\u00e3o ele comprou pato, ele comprou ganso, comprou&#8230; Tinha um terreno gigante que era um galinheiro assim, que a\u00ed virou minha floresta tamb\u00e9m. Comprou dois cabritos assim. Ent\u00e3o, tudo que ele tinha sonhado assim a vida inteira ele teve. E na cidade, era uma cidade muito pequena. N\u00e3o lembro quantos mil habitantes tinham. Tinham duas escolas s\u00f3, duas escolas p\u00fablicas. E ou l\u00e1; ent\u00e3o cidade do interior, ou voc\u00ea joga futebol; e l\u00e1 tinha o voleibol. Tinha um professor que gostava muito do voleibol. E tinha, as duas escolas eram rivais assim de voleibol. Ent\u00e3o voleibol \u00e9 um esporte forte na cidade. E a minha \u00fanica sa\u00edda de n\u00e3o fazer futebol assim. E a\u00ed comecei com o v\u00f4lei e foi muito legal porque o v\u00f4lei \u00e9 dif\u00edcil. Ent\u00e3o, geralmente todo esporte que eu fazia, eu fazia muito bem, aprendia r\u00e1pido e j\u00e1 me destacava. E o v\u00f4lei era muito dif\u00edcil, sabe? Voc\u00ea fazia os movimentos certos, manchete. \u00c9 um esporte de muita precis\u00e3o. Ent\u00e3o me pegou porque eu tinha que ficar treinando, batendo bola na parede, sabe? Se eu n\u00e3o quisesse passar vergonha na quadra. Ent\u00e3o demorou pra ficar um dos melhores jogadores l\u00e1. ent\u00e3o tinha muito baixinho melhor do que eu, n\u00e9? Ent\u00e3o tinha uma coisa assim de eu querer me desafiar. Ent\u00e3o foi o que conseguiu me segurar, nenhum outro esporte me segurava. Que eu aprendia r\u00e1pido, jogava bem, a\u00ed j\u00e1 come\u00e7ava a me interessar pelo outro ali que tamb\u00e9m \u00e9 interessante. E o v\u00f4lei me segurou. A\u00ed meu pai cansou dessa vida de campo. Que n\u00e3o era t\u00e3o maravilhosa quanto ele imaginava. E dois anos depois a gente voltou pra Santos. Quando a gente come\u00e7ou a acostumar; assim, eram os filhos; a gente n\u00e3o queria morar no meio do mato. Mas a\u00ed foi, e quando a gente foi pra l\u00e1 foi maravilhoso, que a gente foi assim entrar no meio de floresta, ent\u00e3o brincava de me perder, n\u00e9? Ent\u00e3o entrava assim duas horas no meio da mata, sa\u00eda das trilhas: \u201cAgora, vamos se encontrar.\u201d Foi a\u00ed come\u00e7ou essa coisa de turma, n\u00e9? Ent\u00e3o tinha aquele bando de 15 moleques, ia pro meio do mato, tomar banho de rio, explorar aquela montanha que os pais n\u00e3o imaginavam, n\u00e9, pegar passarinho. Ent\u00e3o tinha essas; pegar peixe no rio, de peneira. Isso era; foi uma fase, foi um presente que meu pai acabou dando pra gente que virou \u201ccotidiana\u201d, n\u00e9? Escola, volta, rio. Escola, volta, floresta. Ent\u00e3o tinha muito essa brincadeira de mato. Que eu brincava, que eu vivia no sonho, no Mundo Animal, comecei a viver realmente, n\u00e9? Ent\u00e3o de ver on\u00e7a no meio do mato, tinha on\u00e7a. Isso foi muito legal. Mas me deu essa conex\u00e3o com o v\u00f4lei. E quando a gente voltou pra Santos, eu imaginei que a\u00ed eu tinha que voltar pro atletismo que eu gostava muito. Eu voltei pra Santos, eu fui ver um treino de uma prima minha, que disseram que ela \u201ctava\u201d jogando muito bem, jogava no Santos Futebol Clube na \u00e9poca, tinha um time bom feminino. E quando eu fui ver eles jogando, era um v\u00f4lei de alto n\u00edvel assim. Nem era o melhor do Brasil, mas comparado com o que eu jogava na cidade, aquela quadra de cimento assim, voc\u00ea n\u00e3o podia se jogar no ch\u00e3o. Elas davam aqueles peixinhos, mergulhavam, aquela coisa assim. Muita velocidade. Eu fiquei apaixonada por aquilo Falei: \u201cNossa v\u00f4lei \u00e9 mais legal do que eu imaginava\u201d A\u00ed comecei, fui jogar no Santos. Dali, por causa do v\u00f4lei, logo no primeiro ano j\u00e1 ganhei uma bolsa nesse col\u00e9gio que era muito bom. E a\u00ed foi, enfim, esse desafio. O time desse col\u00e9gio que eu ganhei bolsa tamb\u00e9m era um time que era o melhor do Estado na \u00e9poca. Ent\u00e3o foi ficando essa coisa de tender pro profissionalismo. \u201cTava\u201d jogando no Santos, o Santos depois de um ano que eu jogava ali, o Santos montou um time profissional muito bom. E eu j\u00e1 comecei a ganhar dinheiro com 16 anos. Ent\u00e3o j\u00e1 ia poder comprar minhas coisa, ajudar em casa, foi muito legal. E a\u00ed j\u00e1 come\u00e7ou a ter esse sonho assim, essa vontade de ir pra alto n\u00edvel, n\u00e9? Mas come\u00e7ou a\u00ed. E tinha uma qualidade, o v\u00f4lei \u2013 eu imagino \u2013 que ainda hoje tem: como n\u00e3o tem o confronto f\u00edsico, de toque com o advers\u00e1rio, tem essa rede separando, tem uma qualidade muito boa de coopera\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia. A gente \u00e9 muito mais pr\u00f3ximo. N\u00e3o tem uma viol\u00eancia muito expl\u00edcita. A viol\u00eancia, no m\u00e1ximo tem gente que quer matar o outro do lado de l\u00e1 mas tem que ser com a bola, n\u00e9? E a bola n\u00e3o machuca muito assim, pode; ent\u00e3o voc\u00ea vai, \u00e9 uma coisa de pensar, de articula\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o pode ser muito, n\u00e3o tem muita chance de voc\u00ea ser ou cruel com o outro ou; como \u00e9 que fala? Injusto. N\u00e3o tem necessidade de roubar De voc\u00ea n\u00e3o jogar o jogo. Que no basquete tem muito truque, n\u00e9? Voc\u00ea pode, sabe? Tem pisar. \u2013 Eu lembro \u2013 que eu parei de jogar basquete por conta disso. Voc\u00ea pode jogar muito bem. Mas, \u00e0s vezes, quando voc\u00ea vai se sair pra cesta, tem uns truques que o juiz n\u00e3o v\u00ea. \u201cNeguinho\u201d pisa o teu p\u00e9. E voc\u00ea estoura teus ligamentos por uma coisa que n\u00e3o \u00e9 brincadeira. Mas, sabe, na ora de um jogo voc\u00ea apela pra outras quest\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o no jogo. No universo basquete assim: voc\u00ea fica ligado, porque sabe que isso acontece. Mas s\u00e3o outras quest\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o na quest\u00e3o t\u00e9cnica da tua supera\u00e7\u00e3o e pra mim era muito importante essa coisa da honestidade, veio da minha fam\u00edlia, n\u00e9? Voc\u00ea n\u00e3o pode usar de roubo pra ganhar do outro, voc\u00ea pode se superar e superar o outro na t\u00e9cnica. E o v\u00f4lei oferecia esse ambiente. Voc\u00ea ser 100% honesto, n\u00e9, direto. Ent\u00e3o quem \u00e9 melhor, \u00e9 melhor mesmo. E tinha uma coisa de voc\u00ea sempre cumprimentar o outro. Termina o jogo voc\u00ea cumprimenta o cara. Ent\u00e3o, parece a coisa do jud\u00f4 tamb\u00e9m, n\u00e9? Voc\u00ea honra esse ritual de; ent\u00e3o, \u00e9 um ambiente que pra mim foi muito mais f\u00e1cil, n\u00e3o foi muito chocante. At\u00e9 pela minha forma\u00e7\u00e3o religiosa, de honestidade, de n\u00e3o falar palavr\u00e3o, de n\u00e3o querer detonar o outro, n\u00e9? Ent\u00e3o o v\u00f4lei; essas qualidades que o ambiente, a atmosfera do voleibol tem, n\u00e9? E de constante supera\u00e7\u00e3o foi fenomenal. E \u00e9 fenomenal assim pra minha forma\u00e7\u00e3o de hoje \u00e9 igual, o v\u00f4lei \u00e9 impressionante porque voc\u00ea ganha e perde a cada ponto, a cada momento. Ent\u00e3o teu mundo rui, n\u00e9, voc\u00ea perdeu um ponto terr\u00edvel assim, est\u00e1 tal voc\u00ea perdeu, parece que o mundo acabou. Mas voc\u00ea tem que: o pr\u00f3ximo ponto que j\u00e1 est\u00e1 indo, o cara vai sacar de novo e voc\u00ea tem que est\u00e1 inteiro e pronto, e a vida recome\u00e7a. Essa qualidade de, sabe, que o v\u00f4lei foi te dando voc\u00ea n\u00e3o perde.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 A gente v\u00ea agora nessas partidas assim, o \u00faltimo ponto, o ponto que voc\u00ea ganha a partida, ele demora pra vir. \u00c9 assim um poder de rea\u00e7\u00e3o enorme.<\/p>\n<p>R \u2013 E concentra\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o se pode derrubar, voc\u00ea n\u00e3o desiste.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Toda hora vira o jogo, vira o jogo e nunca fecha, n\u00e9? Eu estava reparando nisso outro dia assim. \u00c9 incr\u00edvel mesmo.<\/p>\n<p>R \u2013 E o que forma na gente, tanto \u00e9, que o jogador de v\u00f4lei a grande maioria deles se d\u00e1 bem, assim profissionalmente. Ou continua mesmo no v\u00f4lei; mas profissionalmente ele se; agora o v\u00f4lei virou um esporte profissional em todas as \u00e1reas. Ent\u00e3o geralmente eles se inserem na ind\u00fastria do v\u00f4lei mesmo. Mas na \u00e9poca tinha muita gente que ia fazer ou Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica ou Engenharia ou ia pra uma empresa. Mas s\u00e3o pessoas muito determinadas, muito calmas, trabalham muito bem em equipe, n\u00e9? Ent\u00e3o trabalham muito bem sozinhas tamb\u00e9m. Ent\u00e3o essa coisa de voc\u00ea tem que centrar no teu, sabe, na tua performance. Ent\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 muito pra ficar olhando o outro, ficar corrigindo o outro. No v\u00f4lei jovem voc\u00ea at\u00e9 faz isso, fica um reclamando do outro. Mas no alto n\u00edvel, voc\u00ea n\u00e3o tem tempo, voc\u00ea reclama uma vez, fala: \u201cP\u00f4.\u201d E j\u00e1 volta a centrar no teu, porque a bola pode vir pra voc\u00ea no momento seguinte.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Um segundo.<\/p>\n<p>R \u2013 Ent\u00e3o acho que, reconhe\u00e7o que o v\u00f4lei tem uma forma\u00e7\u00e3o na minha personalidade assim, na minha forma de atuar. Foi muita sorte eu ter escolhido o v\u00f4lei no meio de tantos esportes que eu comecei a fazer, n\u00e9? Que gostei, que me dei bem. Podia ser profissional em v\u00e1rios deles.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Edgard, voc\u00ea ficou dividido entre seguir a carreira profissional no v\u00f4lei e fazer Arquitetura, e come\u00e7ar uma carreira de arquiteto?<\/p>\n<p>R \u2013 N\u00e3o, n\u00e3o Eu tinha uma facilidade muito grande de; eu tenho uma facilidade muito grande de abandonar a coisa, de deixar ir assim. N\u00e3o tenho muitos apegos, n\u00e9? Ent\u00e3o o v\u00f4lei fez minha vida. Foi assim: jogando v\u00f4lei eu guardei dinheiro, paguei minha faculdade inteira com o v\u00f4lei, n\u00e9? Que o meu pai jamais ia poder pagar. Eu viajei muitos pa\u00edses, n\u00e9, alguns continentes por causa do v\u00f4lei. Que minha fam\u00edlia jamais podia pagar. E eu trabalhando num trabalho comum demoraria anos, n\u00e9? E se eu tivesse sorte Ent\u00e3o o v\u00f4lei me deu muita uma estabilidade; antes de parar eu comprei um apartamento. Ent\u00e3o assim, isso eu tinha 21, 22 anos de idade j\u00e1 tinha meu apartamento, n\u00e9? Ent\u00e3o deu uma tranq\u00fcilidade pra encarar a vida e fazer o qu\u00ea eu fa\u00e7o hoje, escolher o que eu queria fazer, escolher o per\u00edodo, na minha faculdade eu escolhi at\u00e9 onde eu queria trabalhar, onde eu queria fazer est\u00e1gio. \u201cN\u00e3o, quero fazer, melhor a forma\u00e7\u00e3o aqui.\u201d Ent\u00e3o, n\u00e3o precisava de dinheiro e n\u00e3o precisava que algu\u00e9m mandasse dinheiro. N\u00e3o fiquei rico, mas eu guardei. N\u00e3o tinha onde gastar, n\u00e9? E as viagens o v\u00f4lei me pagava. Ent\u00e3o me ajudou muito na minha forma\u00e7\u00e3o. Mas \u2013 eu perdi \u2013 a pergunta que voc\u00ea falou Por que se foi dif\u00edcil \u2013 lembrei \u2013 se foi dif\u00edcil largar.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Continuar no profissional do v\u00f4lei e passar a ser um profissional de Arquitetura.<\/p>\n<p>R \u2013 N\u00e3o \u2013 eu lembro \u2013 que tive uma quest\u00e3o assim: foi mais dif\u00edcil meus amigos me cobrando, as pessoas come\u00e7aram a me ligar: \u201cMas voc\u00ea vai parar? Voc\u00ea \u00e9 louco?\u201d Ent\u00e3o essa coisa de soltar a comunidade do v\u00f4lei, do que o v\u00f4lei em si. Na \u00e9poca assim, eu estava j\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas anos querendo fazer vestibular, querendo; o v\u00f4lei era a minha vida inteira. Eu sempre tinha uma estrat\u00e9gia de fazer tr\u00eas esportes ao mesmo tempo ou tr\u00eas coisas diferentes que eu n\u00e3o queria ficar preso a nada assim. A id\u00e9ia de sofrer por alguma perda, sabe, pra mim era terr\u00edvel. Ent\u00e3o fazia tr\u00eas, quatro coisas ao mesmo tempo. Se uma acabasse, eu tinha mais duas outras tr\u00eas coisas que eu estava apaixonado. Ent\u00e3o estava tudo muito bem. Mas, o v\u00f4lei eu gostei bastante S\u00f3 que quando eu fui; quando eu percebi que toda minha vida era o v\u00f4lei, quando acordei assim e vi que toda minha vida era o v\u00f4lei e que se eu perdesse aquilo, de repente, eu podia ficar muito mal, eu falei: \u201cAh, n\u00e3o est\u00e1 certo.\u201d Ent\u00e3o comecei a relembrar quais eram meus sonhos. E a Arquitetura era um deles. Mas era um sonho assim que n\u00e3o era t\u00e3o forte pra mim. Porque era no curso t\u00e9cnico, era o curso t\u00e9cnico a\u00ed eu ia fazer faculdade. Entrei na faculdade, a\u00ed tranquei, nessa \u00e9poca fui chamado pra jogar em S\u00e3o Paulo. Era muito dinheiro, era uma carreira mesmo, o v\u00f4lei \u201ctava\u201d estourando naquela \u00e9poca no Brasil. Ent\u00e3o tinha que ir. Ent\u00e3o, falei: \u201cVou\u201d Mas era muito \u201ccdf\u201d tamb\u00e9m, falei: \u201cMas, v\u00f4lei, n\u00e9?\u201d Meu pai sempre falando que o v\u00f4lei n\u00e3o d\u00e1 camisa a ningu\u00e9m. Esporte n\u00e3o d\u00e1 camisa a ningu\u00e9m. E mal sabia ele, n\u00e9? Que acabei; nessa \u00e9poca j\u00e1 ganhava dez vezes mais do que ele com 17 anos de idade, n\u00e9? Ent\u00e3o era; ele se assustou com aquilo: \u201cN\u00e3o d\u00e1 dinheiro\u201d Mas ao mesmo tempo eu tamb\u00e9m tinha medo: d\u00e1 dinheiro quanto tempo, n\u00e9? J\u00e1 estava iniciando, dois anos, tr\u00eas anos depois. O que eu ia fazer? Ent\u00e3o apostei tr\u00eas anos, fui pra S\u00e3o Paulo, s\u00f3 que o v\u00f4lei continuou crescendo, continuou dando dinheiro. Mas eu me dei conta assim que o v\u00f4lei, minha carreira ia at\u00e9 30, 33 anos de idade e pronto Ia acabar, de repente, todo estourado com joelho, costas. E \u2013 eu j\u00e1 sabia \u2013 que n\u00e3o ia querer ser professor de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica \u2013 j\u00e1 sabia \u2013 que n\u00e3o ia querer continuar.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Voc\u00ea n\u00e3o teve essa tenta\u00e7\u00e3o de fazer Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica?<\/p>\n<p>R \u2013 N\u00e3o, n\u00e3o tive. N\u00e3o tinha. Eu queria outras coisas Nem sabia direito se eu ia; j\u00e1 fiquei pensando. Abriu um mundo grande, eu podia ir pra fora do Brasil. mas eu falei assim: \u201cAh, s\u00f3 pra come\u00e7ar vamos ver se \u00e9 Arquitetura mesmo?\u201d E voltei pra faculdade e foi delicioso Ent\u00e3o assim, n\u00e3o teve; a \u00fanica coisa que eu pensei duas vezes foi: Como \u00e9 que vai ser pra mim? Eu fico imaginando eu tendo profiss\u00e3o e tendo f\u00e9rias uma vez por m\u00eas, uma vez por ano s\u00f3 um m\u00eas. Isso me deixava doente A id\u00e9ia de poder s\u00f3 parar uma vez por ano pra descansar. Eu n\u00e3o conseguia, sabe? O v\u00f4lei voc\u00ea tinha algumas sa\u00eddas, n\u00e9? Ou mesmo o v\u00f4lei tinha poucas f\u00e9rias, mas era uma paix\u00e3o Voc\u00ea n\u00e3o via o v\u00f4lei como uma profiss\u00e3o, n\u00e9? Era uma paix\u00e3o que por acaso dava um dinheiro. Mas eu fiquei imaginando: eu no escrit\u00f3rio, sentado, e s\u00f3 um m\u00eas de parada n\u00e3o ia dar conta. Achei que n\u00e3o ia conseguir. Mas isso eu cheguei a pensar. Pensar na comunidade que eu ia perder de amigos, assim de n\u00e3o est\u00e1 muito pr\u00f3ximo com eles. Mas eu nunca fui muito preso assim, de muita saudade. Ent\u00e3o falei: \u201cAh, se eu quiser ver, vou v\u00ea-los, n\u00e9?\u201d Mas, na verdade, n\u00e3o devo nenhum trope\u00e7o assim. Eu fui, e essa coisa s\u00f3 de mudar de ares j\u00e1 foi bom. E nessa \u00e9poca eu tamb\u00e9m tinha contundido, eu tinha torcido o joelho. Tinha torcido o joelho uma vez, a\u00ed recuperei, a\u00ed como eu estava for\u00e7ando muito o outro, torci o outro. A\u00ed eu falei: \u201cTudo bem.\u201d Mas isso era muito comum no v\u00f4lei. Ent\u00e3o tudo bem. Era comum com todo mundo, mas eu achava que alguma coisa estava estranha. A\u00ed quando eu torci a terceira vez esse aqui, eu comecei a pensar: \u201cAh, eu com 23 anos de idade assim.\u201d Falei: \u201cSer\u00e1 que&#8230;\u201d Alto, n\u00e9? \u201cSer\u00e1 que eu vou querer ser um velho com 70 anos, 80 anos e ficar mancando pela rua?\u201d \u201cEnt\u00e3o, vamos come\u00e7ar a pensar outra alternativa.\u201d E comecei a rever o v\u00f4lei, o qu\u00ea \u00e9 que me estava me dando o v\u00f4lei, o qu\u00ea \u00e9 que ainda fazia bem. Entendi que o que eu mais gostava era viajar com o v\u00f4lei, era conhecer pessoas muito diferentes. Isso eu tinha possibilidade de fazer em outro lugar. A\u00ed entendi que j\u00e1 tinha dado o tempo. E fui.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Foi tranq\u00fcilo?<\/p>\n<p>R \u2013 Foi \u00f3timo. Foi outro mundo.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Mas voc\u00ea chegou a trabalhar com arquitetura?<\/p>\n<p>R \u2013 Trabalhei. De vez em quando eu ainda trabalho hoje. De vez em quando. A gente tem escrit\u00f3rio de arquitetura. Funcionando, enfim, \u00e9 muito bom o escrit\u00f3rio. Mas, dentro da Arquitetura abriu um mundo, outra, assim; principalmente os encontros nacionais e latino-americanos de Arquitetura abriu um outro mundo, que foi esse mergulho pro social.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 \u00c9, vamos come\u00e7ar a falar disso, n\u00e9?<\/p>\n<p>R \u2013 \u00c9, pode ser.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Como chegou essa&#8230;? Por esses encontros de arquitetura?<\/p>\n<p>R \u2013 Foi. Na verdade, assim, tem uma hist\u00f3ria l\u00e1 atr\u00e1s ainda essa, Arquitetura me recobrou um encontro com a inf\u00e2ncia mesmo, n\u00e9? Ent\u00e3o teve esse gap interno que foi esporte, desenho, n\u00e9? Esporte at\u00e9 a arquitetura. E acho que a arquitetura me conectou com uma quest\u00e3o de inf\u00e2ncia mesmo. Que era, por exemplo, essa fase que eu te falei na inf\u00e2ncia que eu era muito introspectivo, ligado com mato e animais, eu n\u00e3o gostava muito de gente, n\u00e9? Assim, ali\u00e1s eu n\u00e3o entendia gente. Era tudo muito estranho. Sabe aquela coisa meio de crian\u00e7a: n\u00e3o isso aqui&#8230; Porque n\u00e3o parecia de verdade. Ent\u00e3o, o adulto mente pra crian\u00e7a, oculta. Ent\u00e3o, e crian\u00e7a saca isso, eu era muito sens\u00edvel a isso, sabe? Meu corpo reagia muito essa coisa de alguma coisa n\u00e3o est\u00e1 certa aqui At\u00e9 hoje \u00e9 assim tamb\u00e9m. Alguma coisa n\u00e3o est\u00e1 certa, n\u00e3o to entendendo, tendo a come\u00e7ar sair e buscar um lugar que esteja mais, sabe? Meu corpo est\u00e1 dizendo: sim. Ent\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00f5es interpessoais, grupos, atmosferas assim; hoje em dia at\u00e9 j\u00e1 aprendi a transformar essas atmosferas, n\u00e9? Mas antes eu tinha que fugir dali. Ent\u00e3o, todo lugar de gente era meio estranho. Ent\u00e3o, crian\u00e7a sendo m\u00e1 uma com a outra, sabe? Crian\u00e7a tem muito isso: quando est\u00e1 brincando \u00e9 tudo legal, mas quando come\u00e7ava a querer fazer aquela turminha pra acabar com o outro, e crian\u00e7a sabe ser perversa quando quer, n\u00e9? D\u00e1 at\u00e9 uma quest\u00e3o de treinamento em sobreviv\u00eancia. Ent\u00e3o isso eu nunca me adaptava muito. Ficava tentando salvar o outro, que ia ser aprontado com eles. Mas a principal conex\u00e3o que a arquitetura me fez foi com duas quest\u00f5es muito fortes. Quando era crian\u00e7a, essa coisa de gostar muito de animais, eu era apaixonado principalmente por tigre, por felinos, grandes felinos, apaixonado Mas tigre era assim, tigre e pantera era o que eu mais gostava. E baleias, cet\u00e1ceos. Adorava, pesquisava, desenhava. Desenhava muitas baleias, sereias. Adorava essas coisas de crian\u00e7a.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Voc\u00ea ia \u00e0quele museu l\u00e1 de Santos, que tem o esqueleto daquela baleia?<\/p>\n<p>R \u2013 \u00c9. Ali\u00e1s, a gente trabalhou, a gente fez a restaura\u00e7\u00e3o daquele museu.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Ficou maravilhoso.<\/p>\n<p>R \u2013 Ficou? Ah, que bom. A gente gostou mesmo assim, foi bem sonhado. Mas acho que essa hist\u00f3ria que ligou da inf\u00e2ncia foi um choque Nessa \u00e9poca eu j\u00e1 sonhava que ia trabalhar com animais, com natureza, ia pro meio da \u00c1frica. Mas eu lembro de uma cena que foi muito chocante pra mim que eu recuperei anos depois na arquitetura: foi uma cena do Mundo Animal, que era uma s\u00e9rie sobre os tigres. E eu lembro de um tigre fugindo; pra mim o tigre era assim o animal mais poderoso do mundo, n\u00e9? Gigante, enorme, quase tr\u00eas metros e pouco de comprimento, o bicho. Ent\u00e3o, nada podia mexer com o tigre, n\u00e9? E \u2013 eu lembro \u2013 da cena, do rosto, da cara dele, desesperada assim, n\u00e9, acuada. E era uma ca\u00e7ada ao tigre na \u00cdndia. Ent\u00e3o ele ia fugindo e os ca\u00e7adores estavam muito longe dele. E o tigre pra mim sempre foi uma coisa muito esperta assim, ele fugia, escalava, se escondia, \u00e0s vezes, passa a pessoa por ele, e ele est\u00e1 l\u00e1 \u201cparadinho\u201d no meio do bambu, ningu\u00e9m v\u00ea. Ent\u00e3o, tem essa coisa muito, era muito poderoso, n\u00e9, aquele animal E ver aquela express\u00e3o dele de medo, desespero na cena, me chapou assim a primeira vez que eu vi. E fui continuando vendo a cena. Ent\u00e3o, estavam os ca\u00e7adores indianos com elefantes e eles faziam barulho na mata assim, iam fazendo barulho. E aquele barulho foi deixando eles desesperados. E eu pensei assim: Mas como esse animal t\u00e3o poderoso, est\u00e1 desesperado com barulho, n\u00e9? Pra mim ele podia derrubar aqueles elefantes, podia derrubar as pessoas e, n\u00e9? Ent\u00e3o, foi ali, eu comecei a tomar a dimens\u00e3o, foi quando caiu a ficha, devia ter uns sete anos de idade. Caiu a ficha de qu\u00e3o poderoso o homem \u00e9. Porque tinha v\u00e1rios \u201cmundos animais\u201d que falavam sobre isso, de como o Homem vai destruindo e como ele foi tirando o h\u00e1bitat. Mas era uma coisa que pra mim era assim: ia tirando o h\u00e1bitat e os animais tinham que fugir, n\u00e9? Mas com o tigre jamais ia mexer. Ent\u00e3o, foi ali que eu; caiu alguma ficha que eu n\u00e3o entendi tamb\u00e9m Mas a cena pior que eu tenho at\u00e9 hoje na minha mente assim, \u00e9 muito \u201cpunk\u201d \u201cpra mim\u201d lembrar: ele parou debaixo de um bambuzal assim, tinha um capinzal, os caras ainda estavam longe dele, mas ele estacionou e ficou paralisado assim. Sentado assim, deitado embaixo do bambuzal e tremia. Mas ele n\u00e3o sabia pra onde ir. Aquela sensa\u00e7\u00e3o de desespero, que ele n\u00e3o conseguia se mexer Ele n\u00e3o conseguia; nem que andava de um lado pro outro que nem na jaula. Ele ficava deitado, paralisado no ch\u00e3o e tentava, sabe, com espasmos assim de fugir. \u00c9 assim, eu tenho muito claro a cena na minha mente assim, se eu ficar muito focado nela eu vou come\u00e7ar a chorar. E; mas era; a sensa\u00e7\u00e3o, ele deitado no ch\u00e3o e os espasmos; quer dizer, que ele assim; e a cara dele. O rabo pra tudo quanto \u00e9 lado. E n\u00e3o conseguir sa\u00edda. E os ca\u00e7adores ainda longe cercando ele, mas ele j\u00e1 tinha, a desist\u00eancia dele, a paralisa\u00e7\u00e3o dele frente ao poder que o homem pode ter. ent\u00e3o pensei: Como \u00e9 que a gente, um corpinho desse, n\u00e3o tem garra, n\u00e3o tem nada e consegue fazendo barulho, assim quanto. Ent\u00e3o ficou, essas informa\u00e7\u00f5es todas na minha cabe\u00e7a n\u00e3o encontravam lugar. Eu fiquei muito assustado e muito impactado com aquilo, fui resolver isso muito anos depois. Mas aquela cena do animal mais poderoso que eu via no planeta, entendeu? Ficar paralisado com alguma coisa t\u00e3o mais simples do homem me deu alguma distor\u00e7\u00e3o a\u00ed assim. Que depois eu fui significar como poder que o homem tem sobre, n\u00e9? O ser humano tem sobre tantas outras coisas usando estrat\u00e9gias, n\u00e9? Ent\u00e3o, como que todo planeta pra mim assim: o poder que o mundo animal tinha, que pra mim estava especificado no tigre ficou em como todo um planeta est\u00e1 a merc\u00ea do que a gente pode fazer. Do poder que o homem pode fazer. E esse homem pode ser qualquer um. Como eu n\u00e3o gostava de gente na \u00e9poca, eu n\u00e3o tinha uma rela\u00e7\u00e3o afetiva assim. Era; gente pra mim era uma coisa mais amea\u00e7adora. At\u00e9 porque o Mundo Animal falava muito sobre isso tamb\u00e9m. Ent\u00e3o tinha essa imagem do homem que era um ser que se ele quisesse ele podia destruir, n\u00e9? Ent\u00e3o, estava na m\u00e3o dele. Ent\u00e3o isso me deu; plantou uma semente dentro de mim que foi marcante. E uma segunda, que eu fui recuperar assim, fui sair desse trauma l\u00e1 na arquitetura, alguns anos atr\u00e1s. E entender, significar essas coisas todas pra transformar em a\u00e7\u00e3o. Em transforma\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00e3o, n\u00e9? E a segunda foi uma cena que foi, que essa tamb\u00e9m eu vou ter que cuidar pra n\u00e3o chorar, foi uma cena que era bem pequeno tamb\u00e9m, talvez at\u00e9 antes dessa do tigre. N\u00e3o consigo precisar a data. Talvez sete, oito anos de idade. Que eu \u201ctava\u201d em frente da televis\u00e3o e de repente vem uma cena de umas pessoas; ali\u00e1s, a primeira cena&#8230;foi essa mesma, algumas pessoas no arame farpado. Que era do Nazismo, campo de concentra\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o as cenas em preto e branco s\u00e3o sempre cenas cl\u00e1ssicas. Preto e branca e umas pessoas assim que elas seguravam no arame farpado, e magras, muito magras com aquelas roupas listradas. E o olhar \u00e9 um olhar vidrado assim seco. Ent\u00e3o gravei muito olhar assim. Eu era muito pequeno mas essa cena assim, alguma coisa naquele olhar e na aus\u00eancia de movimento; era um movimento assim, uma coisa assim sem vida, parado assim, uma pausa, uma aus\u00eancia de vida ali E com o corpo vivo, n\u00e9? Ent\u00e3o; hoje, s\u00e3o palavras que eu consigo dizer hoje Mas, assim essas sensa\u00e7\u00f5es causaram assim: primeiro eu via aquilo e s\u00f3 achei estranho. N\u00e3o entendi nada. N\u00e3o chorei, n\u00e3o sofri, s\u00f3. E grudei na televis\u00e3o. A\u00ed tinha uma segunda cena: que eram umas pessoas jogando umas coisas assim no; que eu tamb\u00e9m \u2013 n\u00e3o entendi \u2013 na minha cabe\u00e7a, mas o meu corpo reagiu muito forte. Eu lembro muito claramente assim; n\u00e3o \u00e9 que eu lembre, \u00e9 que quando eu lembro disso, meu corpo volta pra mesma rea\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o tinha um calar, sabe assim? Uma; e a sensa\u00e7\u00e3o que \u201ctava\u201d era que algo ia me sufocar, algo como se passasse o m\u00ednimo de respira\u00e7\u00e3o, como se tivesse alguma coisa invis\u00edvel, uma venda invis\u00edvel, uma gosma invis\u00edvel que pegava o meu peito. \u2013 Eu tenho \u2013 essa sensa\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje assim, aqui assim. Ent\u00e3o eu respirava menos, eu tinha, \u00e9 como se tivesse um m\u00ednimo de oxig\u00eanio pra ficar meio s\u00f3 sobrevivendo ali. Ent\u00e3o n\u00e3o tinha pulsa\u00e7\u00e3o, eu fiquei nesse estado de letargia frente \u00e0quela cena. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o entendi, mas meu corpo entendeu o que \u201cque\u201d era. E passou umas cenas seguintes, e a\u00ed vinha assim, a\u00ed que eu entendi que eram corpos. E a quarta cena; ent\u00e3o pegavam esses corpos, eram aqueles mesmos caras de tr\u00e1s que iam jogando assim, ent\u00e3o empilhando numas piscinas enormes assim. E a quarta cena foi quando apareceu um foco e alguns dos corpos se mexiam ainda&#8230; Assim, eu n\u00e3o sei quanto tempo levou, mas&#8230; eu n\u00e3o tinha estrutura pra significar aquilo. N\u00e3o tinha onde colocara aquelas imagens. S\u00f3 caiu a ficha, algumas conex\u00f5es que era gente que \u201ctava\u201d fazendo aquilo. Mas n\u00e3o sabia o qu\u00ea \u00e9 que era Hitler, o qu\u00ea \u00e9 que era. S\u00f3 cenas que s\u00e3o cl\u00e1ssicos da crian\u00e7a, n\u00e9? Est\u00e3o no arame farpado, est\u00e3o presas, algu\u00e9m prendeu. Ent\u00e3o \u2013 n\u00e3o sei o que \u00e9 aconteceu dentro da minha cabe\u00e7a, mas eu n\u00e3o tinha estrutura pra segurar aquilo. E aquilo ficou comigo anos. Ent\u00e3o, eu devo ter durado; minha m\u00e3e me conta que ela chegou, depois de um tempo ela chegou me viu; e tinha umas poltronas grandes assim que a gente ficava assistindo televis\u00e3o, ent\u00e3o quem estava atr\u00e1s n\u00e3o via, n\u00e9? Ent\u00e3o, ela chegou e eu estava chorando. Chorando, chorando, chorando. E ela viu a televis\u00e3o n\u00e3o sabia o qu\u00ea \u00e9 que era. N\u00e3o tinha visto mais. Ficou desesperada que tinha assim que j\u00e1 tinha essas cenas, \u00e0s vezes, de chorar, o Mundo Animal eu chorava porque tinham matado uma baleia, n\u00e9? Ent\u00e3o ela, mas ela falou que essa vez que eu chorei muito, e ela ficou muito preocupada sem saber o que \u00e9 que era. E, a partir da\u00ed comecei a fazer umas perguntas, passava de tempo em tempo meu pai me contava, n\u00e9? Eu fui perguntar pra ele alguns anos atr\u00e1s, ele contava que passava um tempo eu fazia uma pergunta. Falei: \u201cPai, mas que \u00e9 que \u00e9 o Nazismo, n\u00e9?\u201d A\u00ed contava alguma coisa: \u201cPai, mas por que \u00e9 que deixaram aquilo acontecer? O mundo sabia?\u201d Ent\u00e3o, quando come\u00e7ou a vir perguntas na minha cabe\u00e7a eu ia perguntar pra ele assim: \u201cMas as pessoas sabiam aquilo?\u201d Porque tudo bem que os alem\u00e3es fizeram aquilo, ou aqueles alem\u00e3es fizeram aquilo, mas tinham os pa\u00edses vizinhos, tinham, sabe? \u201cSer\u00e1 que um vizinho&#8230;\u201d Ent\u00e3o, eu tentando montar minhas l\u00f3gicas e como aquilo aconteceu. E a\u00ed ia crescendo e ia sabendo mais not\u00edcias, que eram milhares de pessoas, milh\u00f5es de pessoas. Ent\u00e3o, n\u00e3o tinha o que fazer com aquilo. Essa sensa\u00e7\u00e3o de algo me sufocando; isso ficou muitos anos comigo sem eu me dar conta. Ent\u00e3o ficou; acho que o v\u00f4lei, o esporte assim me deu essa vida, essa busca, voltar a respirar e agir, fazer coisas. Mas na arquitetura, quando eu comecei a lidar com favela de novo e mergulhar nesse mundo, foi que eu recuperei essa hist\u00f3ria de assim, essa conex\u00e3o do que acontece com a favela e como \u00e9 que, o que est\u00e1 acontecendo na \u00c1frica, n\u00e9? Que \u00e9 outra quest\u00e3o pra mim; ou a seca no Nordeste. Ent\u00e3o na arquitetura, por exemplo, eu tive; no v\u00f4lei eu comecei a ter mais grana e fui, queria fazer uma viagem no sert\u00e3o. Pra ver como \u00e9 que era l\u00e1. As coisas que eu via de inf\u00e2ncia, n\u00e9? Crian\u00e7a brincando com ossinho, essas coisas, esses cl\u00e1ssicos, essas imagens, n\u00e9? E foi \u00f3timo ir pra l\u00e1 porque eu cheguei l\u00e1, as crian\u00e7as brincam, elas riem. Ent\u00e3o as crian\u00e7as t\u00eam galinha. Ent\u00e3o tem uma mis\u00e9ria, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aquela mis\u00e9ria que a televis\u00e3o fotografa, n\u00e9? Que mostra o pior, n\u00e9, que \u00e9 o que interessa, que \u00e9 o que toca as pessoas, que \u00e9 a imagem que vende. Mas tem alegria, tem dan\u00e7a, tem comunidade. Ent\u00e3o isso, n\u00e9, me deu um f\u00f4lego assim que n\u00e3o est\u00e1; tem um foco de vida que d\u00e1 pra voc\u00ea trabalhar em torno disso e ampliar esse foco de vida. Tem um foco de luz ali no meio da escurid\u00e3o Ent\u00e3o, tem o que voc\u00ea fazer, n\u00e9? E o Nazismo n\u00e3o tinha mais o que fazer. Passou. E eu sofria, n\u00e3o me acalmava que aquilo n\u00e3o acontecia mais. Minha m\u00e3e falava assim: \u201cIsso n\u00e3o acontece mais.\u201d Mas est\u00e1 acontecendo na \u00c1frica, est\u00e1 acontecendo aqui em S\u00e3o Paulo, a favela em Santos. Ent\u00e3o, a arquitetura foi o que me deu um bra\u00e7o de tocar nisso. De agir. E a\u00ed que eu ca\u00ed a ficha, que voltou essas imagens. E, eu poder limpar isso agindo, n\u00e9? Eu poder transcender essa dor, esse trauma com a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Na arquitetura voc\u00ea foi trabalhar com favelas?<\/p>\n<p>R \u2013 Fui. Na faculdade quase n\u00e3o se falava sobre isso. \u00c9 que minha faculdade, por sorte, ela tem disciplinas, uma disciplina de Urbanismo, ela tem todos os anos. Que n\u00e3o tem mais nenhuma no Brasil que tenha. Ela vai fazer tipo os dois \u00faltimos anos, o \u00faltimo ano. Ent\u00e3o no Brasil voc\u00ea vai ter que&#8230;<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 \u00c9 aquela que ningu\u00e9m quer cursar, n\u00e9?<\/p>\n<p>R \u2013 \u00c9 que ningu\u00e9m gostava. \u201cAh, cidade.\u201d E todo mundo quer fazer grandes edif\u00edcios, n\u00e9, escolas espetaculares, casas maravilhosas. Ent\u00e3o, ficar desenhando cidade, esse esquema, estudando pol\u00edtica, n\u00e3o \u00e9 muito o \u00e9 que arquiteto &#8211; entre aspas &#8211; queria. Agora j\u00e1 \u00e9 mais comum, muita gente quer, tem muito campo de trabalho. Mas ali tinham professores muito bons e que levavam a gente pra favela mesmo, n\u00e9? \u201cVamos l\u00e1 ver\u201d Ent\u00e3o essa realidade est\u00e1 mais presente. Mas iniciei a ver uma vez, voltava, n\u00e3o via mais e ficava, come\u00e7ava a desenhar. Via as fotos de cima e fazia projeto. Voc\u00ea n\u00e3o ia lidar com as pessoas, conversar com as pessoas, voc\u00ea via desenhos, n\u00e9? Estruturas. E pra mim n\u00e3o adiantava, pra mim eu tinha a imagem do Nazismo l\u00e1. Tem gente aqui no meio. N\u00e3o adianta me enganar Mas nos encontros de estudantes de Arquitetura tinham mais pessoas que tinham essa mesma dor. Tem muita gente que foi tocada por isso, por algumas imagens, n\u00e9? Ent\u00e3o, quando fala de urbanismo ele queria falar de gente. Mas aquelas pessoas, o qu\u00ea \u00e9 que elas sonham? Ent\u00e3o a gente come\u00e7ou a desenvolver esse senso mais humano tamb\u00e9m, de fazer sentido o que as pessoas querem, o que as pessoas sonham, quais s\u00e3o os desejos delas, de onde elas v\u00eam. Ent\u00e3o, descobri que aquelas pessoas que est\u00e3o l\u00e1; a gente tem aquela imagem de gente, sabe? Que n\u00e3o \u00e9 gente quase. Que perdeu muito a humanidade, a dignidade deles. Mas voc\u00ea n\u00e3o sabe que no Nordeste eles brincavam no rio e ca\u00e7avam; sabe? Que s\u00e3o pessoas em plena luz. Mas que ali elas est\u00e3o, elas n\u00e3o s\u00e3o aquilo. Mas elas est\u00e3o aquilo, n\u00e9? E nem, \u00e0s vezes, est\u00e3o aquilo naquele lugar. Porque, \u00e0s vezes, se voc\u00ea chega e depois voc\u00ea conhece eles, eles chamam: \u201cAh, vem c\u00e1.\u201d \u201cVai ter uma festa tal.\u201d Eles est\u00e3o pulando, dan\u00e7ando, brincando, s\u00e3o muita vida. N\u00e3o \u00e9 aquilo que voc\u00ea vai l\u00e1 e vai ver, n\u00e9? Ent\u00e3o j\u00e1 d\u00e1, com essa vida se d\u00e1 vontade de trabalhar. Com essa miss\u00e3o.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 E quando vem a id\u00e9ia de criar o Guerreiro sem Armas?<\/p>\n<p>R \u2013 Guerreiro sem Armas, veio depois da experi\u00eancia do museu. A gente fez o Museu de Pesca. Que foi&#8230;<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Vamos falar um pouco dessa experi\u00eancia. Eu achei t\u00e3o bacana.<\/p>\n<p>R \u2013 Do Museu?<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Ela tem um outro olhar assim. Ela \u00e9 t\u00e3o l\u00fadica.<\/p>\n<p>R \u2013 \u00c9.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Que eu conheci o Museu em dois momentos: ele super tradicional, de 30 anos atr\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p>R \u2013 E ele agora.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 E ele agora.<\/p>\n<p>R \u2013 O Museu foi uma experi\u00eancia, foi assim: veio uma experi\u00eancia de amor \u00e0 cidade. Eu, quando terminei a faculdade, eu fui, ganhei uma bolsa, me ofereceram uma bolsa na Alemanha, n\u00e9? Pra estudar l\u00e1. Eu terminei a faculdade, fui trabalhar num instituto, chama Tib\u00e1, na serra do Rio, perto de Nova Friburgo. Chama Tecnologia Intuitiva e Bio-Arquitetura. Lugar super interessante. S\u00f3 isso demoraria uma hora pra eu falar, ent\u00e3o n\u00e3o vou falar. Mas, basicamente assim \u00e9 um arquiteto holand\u00eas, ele chama Johan van Lengen, que \u00e9 uma pessoa que, ele morou muito tempo na \u00cdndia, no M\u00e9xico. Ent\u00e3o ele \u00e9 um super arquiteto modernista, internacional. Mas come\u00e7ou a ter contato com comunidades tradicionais, se apaixonou e entendeu que eles t\u00eam muito conhecimento e arquitetura deveria ser voltada pra esse conhecimento que eles t\u00eam. Uma arquitetura muito mais rica e diferente, diversificada no mundo inteiro. Que \u00e9 exatamente a minha paix\u00e3o. Voltou \u00e0quela paix\u00e3o de inf\u00e2ncia: viajar, conhecer pessoas diferentes, lugares diferentes. Ent\u00e3o, encontrei esse cara, adorei e fiquei com eles, fiquei trabalhando com eles cinco anos, contato com eles cinco anos, trabalhando diretamente tr\u00eas anos, morando l\u00e1. Dali, foi com ele que teve essa oferta de bolsas na Alemanha e na Holanda. Voltei pra Santos, pra arrumar minhas coisas. Mas tinha uma sensa\u00e7\u00e3o, uma clareza de que se eu fosse pra Alemanha eu n\u00e3o ia voltar mais, n\u00e9? E nessa \u00e9poca eu j\u00e1 tinha me dado conta de que muito do que eu tinha foi que a cidade de Santos me deu, experi\u00eancias l\u00e1: de ir pra praia, de pegar peixinho no canal, abertura que essa popula\u00e7\u00e3o de Santos t\u00eam, que \u00e9 essa coisa de ser porto, receber muita gente, ser praia, receber muita gente. A gente \u00e9 muito aberto. Quer fazer amigo o tempo inteiro. Convida as pessoas. Ent\u00e3o muito do que me facilitava minha vida no mundo inteiro, sabe, de eu poder conversar; apesar de ser introspectivo, ningu\u00e9m percebe Consigo conversar, consigo abra\u00e7ar. Ent\u00e3o, essa coisa de me sentir \u00e0 vontade em qualquer lugar do mundo, eu me dei conta que foi presente da minha fam\u00edlia e presente da minha cidade. Ent\u00e3o, eu tinha essa sensa\u00e7\u00e3o assim de que eu n\u00e3o podia ir embora sem presentear isso de volta. Tinha essa sensa\u00e7\u00e3o de agradecimento, de gratid\u00e3o mesmo. Mas eu ia ter que ir embora, n\u00e3o teve jeito. Mas s\u00f3 que quando eu cheguei l\u00e1 um grupo de estudantes, tr\u00eas estudantes da faculdade tinham se envolvido nesse trabalho, nessa campanha de restaura\u00e7\u00e3o do Museu de Pesca, que estava fechado, tombado mesmo. Me chamaram porque sabiam desse projeto que eu j\u00e1 fazia desde a Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (Fenea). De participa\u00e7\u00e3o, n\u00e9, de estudantes e de se envolver com a comunidade, projetar com eles, trabalhar l\u00e1 dentro da favela mesmo. Eles j\u00e1 sabiam desse trabalho e me chamaram pra coordenar o grupo, que eles n\u00e3o queriam chamar um professor que o professor ia fazer eles de \u201cescravi\u00e1rios\u201d, n\u00e9? Quer dizer, o professor ia ter um projeto, eles iam ficar desenhando e a fama ia ficar pro professor. E eu desde a faculdade defendia que todo mundo \u00e9 capaz de fazer, n\u00e9? Ent\u00e3o, que todo mundo tem que ser autor disso, n\u00e3o s\u00f3 o professor. Eles adoraram essa id\u00e9ia e falaram: \u201cVem trabalhar com a gente.\u201d E foi \u00f3timo, que o Museu de Pesca \u00e9 o maior museu da cidade, \u00e9 o mais querido e \u201ctava\u201d fechado, ruindo e ia se deteriorar mesmo. Ent\u00e3o, achei que aquilo \u00e9 um tamanho de presente, falei: \u201cNossa, se a gente reabre esse museu&#8230;\u201d Que era uma utopia, n\u00e9, reabrir. Era um sonho de jovens universit\u00e1rios. Mas se a gente reabre o museu, eu falei assim: \u201cEu posso ir embora tranq\u00fcilo do Brasil que Santos est\u00e1 presenteado com o museu, n\u00e9?\u201d E virou um gigante assim. Que eu falei pra eles: \u201cTudo bem eu fico.\u201d \u201cMas eu t\u00f4 indo pra Alemanha, se \u00e9 pra ficar aqui eu posso perder a bolsa.\u201d \u201cMas pra ficar aqui, a gente vai ter que garantir;\u201d \u201cS\u00f3 vou ficar se voc\u00eas garantir que a gente s\u00f3 vai parar quando o museu tiver reaberto.\u201d Que eu \u201ctava\u201d at\u00e9 pronto pra n\u00e3o ficar reaberto, mas eu queria puxar o m\u00e1ximo deles, n\u00e9? \u201cEnt\u00e3o, voc\u00eas topam?\u201d A\u00ed eles ficaram com medo assim: \u201cN\u00e3o, mas vamos, vamos\u201d Porque eles queriam tamb\u00e9m, n\u00e9? Ent\u00e3o, al\u00e9m de ser reaberto ele tem que ser um museu que n\u00e3o pode dever nada pra nenhum museu do mundo assim. Eu quero que se um americano vier aqui, um canadense vier aqui ele fale: \u201cNossa, que espet\u00e1culo\u201d Ent\u00e3o: \u201cAlgu\u00e9m de Paris vai ter que falar que \u00e9 maravilhoso\u201d \u201cVoc\u00eas topam?\u201d Topam. E terceira condi\u00e7\u00e3o, falei: \u201c\u00d3, tem que ser cooperativa.\u201d \u201cTem que ser uma produ\u00e7\u00e3o coletiva, tem que ser todos n\u00f3s participando e tem que ser a cidade inteira participando, sonhando junto com a gente.\u201d \u201cA gente vai criar estrat\u00e9gia pra isso.\u201d \u201cAh, como \u00e9 que faz?\u201d \u201cN\u00e3o sei, a gente vai inventar.\u201d E foi \u00f3timo porque a gente conseguiu tudo. Ent\u00e3o tinha essa coisa assim: aquele museu que voc\u00ea viu \u00e9 um museu; a gente faz sempre tr\u00eas projetos. Ent\u00e3o \u00e9 bem p\u00e9 no ch\u00e3o, assim que ningu\u00e9m vai poder reclamar, vai ter que fazer, porque pediram projeto pra gente. Est\u00e1 fazendo de gra\u00e7a. E iam ter que fazer. O segundo \u00e9 um projeto que o arquiteto faz que sempre \u201cchuta\u201d, \u00e9 um projeto que sempre d\u00e1 um \u201cchutinho\u201d; c\u00ea pede, c\u00ea tem um or\u00e7amento x, ele vai um pouquinho no x e meio. \u201cVai ficar ali, no fa\u00e7a?\u201d E o terceiro era um ut\u00f3pico. Que era assim pro estudante soltar a imagina\u00e7\u00e3o: \u201cOlha, se n\u00e3o tivesse problema de dinheiro.\u201d \u201cSe voc\u00ea tivesse em Paris, cultura \u00e9 prioridade.\u201d \u201dQue museu que voc\u00ea faria?\u201d \u201cSe voc\u00ea tivesse em T\u00f3quio, tecnologia n\u00e3o tem problema.\u201d \u201cQual museu que voc\u00ea faria?\u201d E eles projetaram isso, essas tr\u00eas hip\u00f3teses de projeto, n\u00e9? S\u00f3 que todo mundo quando viu o projeto ut\u00f3pico, que n\u00e3o \u201ctava\u201d escrito ut\u00f3pico, adorou o projeto ut\u00f3pico.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Que \u00e9 o que?<\/p>\n<p>R \u2013 Que \u00e9 o que est\u00e1 l\u00e1 agora. (RISOS) A gente ficou quieto, falei: \u201cNingu\u00e9m;\u201d \u201cFecha a boca.\u201d Eles falaram: \u201cAh, mas&#8230;\u201d Na ora de mostrar o projeto ut\u00f3pico eles n\u00e3o queriam mostrar, n\u00e9? Que eles fizeram o ut\u00f3pico, viajaram, fizeram uma coisa flutuando, a baleia flutuando, aquela coisa assim com d\u00ednamos, n\u00e9? E eu falei: \u201cAh, voc\u00ea vai fazer&#8230;\u201d Depois que eles fizeram o ut\u00f3pico, que era s\u00f3 a brincadeira, um exerc\u00edcio de criatividade, eu falei: \u201cLegal, agora voc\u00eas v\u00e3o pegar e viabilizar todos esses tr\u00eas.\u201d \u201cCom um p\u00e9 no ch\u00e3o, o outro.\u201d \u201cAh, mas voc\u00ea falou que era pra sonhar.\u201d \u201c\u00c9, mas sonho tamb\u00e9m tem que ter base, n\u00e9?\u201d Ent\u00e3o eles come\u00e7aram a viabilizar mesmo, come\u00e7aram a pesquisar coisa. Ent\u00e3o, pastilha. Como \u00e9 que ia fazer o esqueleto da baleia ficar flutuando? Ent\u00e3o, pastilhas, j\u00e1 tem tecnologia pra isso, n\u00e9? N\u00e3o pra fazer o esqueleto ficar viajando. Mas, fomos buscar isso e \u00e9 legal a criatividade vai indo embora. No final eles fizeram ela pendurada, voando, mas com fios invis\u00edveis, n\u00e9? Mas, vai viabilizar isso no real. E quando eles foram apresentar o projeto, \u201ctava\u201d viabilizado. E as pessoas viram aquilo, n\u00e3o \u201ctava\u201d escrito ut\u00f3pico, acharam que era aquele e adoraram. Ent\u00e3o, a Petrobr\u00e1s viu na televis\u00e3o, foi l\u00e1 e deu o dinheiro, patrocinou. Ent\u00e3o, o Governo do Estado viu, come\u00e7ou o Governo do Estado, n\u00e9? E era bonito mesmo, porque a gente rasgou o ch\u00e3o, o piso do ch\u00e3o. Ent\u00e3o \u00e9 uma coisa que n\u00e3o tem no Brasil. Voc\u00ea rasgou, ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea os dois andares, voc\u00ea v\u00ea a baleia do piso debaixo, parece que tem um, n\u00e9? Ent\u00e3o, tem algumas novidades assim que a gente sonhou. E os americanos chegam l\u00e1 e ficam assim&#8230;<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 E aquela \u00e1rea que voc\u00ea volta a ser crian\u00e7a. Que voc\u00ea desce, passa numa ponte, sobe, entra num quarto de pirata&#8230;<\/p>\n<p>R \u2013 Ela \u00e9 l\u00fadica. Sim. Aquilo veio, foi muito curioso Porque a gente combinou que museu tinha que ser inclusivo, n\u00e9? Ent\u00e3o, acess\u00edvel. Ent\u00e3o, mais que acess\u00edvel ele \u00e9 inclusivo. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ter rampa pra deficiente, n\u00e9? Como \u00e9 que o deficiente vai ter prazer dentro do museu? Qual \u00e9 o prazer que eu tenho no museu? \u00c9 esse. Ent\u00e3o, como \u00e9 que o deficiente vai ter prazer nisso? Como \u00e9 que o idoso vai ter prazer nisso? O qu\u00ea \u201cque\u201d \u00e9 prazer pra uma crian\u00e7a no museu? Ent\u00e3o tinha que ter pra isso. Tinha que ter o prazer, do saber, do conhecer, do explorar, n\u00e9? Ent\u00e3o, a gente ia discutindo muito isso, tinha discuss\u00f5es fant\u00e1sticas assim. Mas isso tamb\u00e9m demora muito tempo. Mas, basicamente veio quando de uma discuss\u00e3o que a gente fez sobre idosos. \u2013 Eu lembro \u2013 direitinho dessa roda, a gente \u201ctava\u201d sentado assim, no museu em ru\u00ednas mesmo, a gente sentado no meio. E a\u00ed o pessoal falou assim: \u201cMas, o idoso tamb\u00e9m;\u201d Uma mulher falou assim: \u201cMas, idoso n\u00e3o quer fazer nada.\u201d \u201cN\u00e3o sai.\u201d \u201cEu tenho meus av\u00f3s, que moram com a gente, quer sair de casa, n\u00e3o querem fazer nada\u201d E a gente come\u00e7ou a discutir isso. Eu falei assim: \u201cEst\u00e1, eles n\u00e3o v\u00e3o no cinema?\u201d Ent\u00e3o, vamos discutir esse ponto: \u201cVoc\u00eas v\u00e3o muito no shopping?\u201d \u201cVamo\u201d \u201cQue que tem no shopping que teu av\u00f4 adoraria?\u201d \u201cTem lojas de roupa pra idosos no shopping?\u201d A\u00ed come\u00e7avam: \u201cAhn.\u201d \u201cQue que tem l\u00e1 que ele se divertiria muito?\u201d \u201cN\u00e3o tem\u201d. Cinema: \u201cQuais s\u00e3o os filmes que est\u00e3o em cartaz?\u201d \u201cVamo falar dos filmes que;\u201d A\u00ed come\u00e7ava; \u201cQuais s\u00e3o os filmes que teu v\u00f4 gosta?\u201d \u201cAh, meu v\u00f4 gosta de filmes antigos assim.\u201d Ent\u00e3o, a rua. Como \u00e9 que \u00e9 andar na rua, n\u00e9? Ent\u00e3o, a gente come\u00e7ava entender que a cidade n\u00e3o \u00e9 acess\u00edvel pra idoso. Que n\u00e3o d\u00e1 pra sair mesmo. N\u00e3o tem prazer pra ele, n\u00e3o tem filme pra ele, n\u00e3o tem loja pra ele, n\u00e3o tem bar pra ele. S\u00f3 se ele for mais jovem, mais descolado, n\u00e3o tem pros interesses que ele tem. Ent\u00e3o, ele vai ficar em casa. Pega um \u201cdigital v\u00eddeo disc\u201d (dvd) e fica em casa. Porque n\u00e3o tem prazer l\u00e1 fora. O mundo n\u00e3o \u00e9 feito pra ele. Ent\u00e3o, eles come\u00e7aram a re-significar isso. A partir do idoso. Como \u00e9 pra crian\u00e7a? Ent\u00e3o, o museu as crian\u00e7as n\u00e3o podem mexer. A crian\u00e7a quer aprender mexendo. Ent\u00e3o n\u00e3o pode tocar. Ent\u00e3o as coisas s\u00e3o est\u00e1ticas. Ent\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 o peixe, fora de contexto, numa \u201cprateleirazinha\u201d. Ent\u00e3o, a gente falou assim: \u201cEnt\u00e3o, agora com esse estado, vamos fazer uma ala&#8230;\u201d Eles entenderam que o mais bonito no museu \u00e9 a paisagem l\u00e1 fora, n\u00e9? Ent\u00e3o, t\u00eam um mar l\u00e1 fora, os navios entrando. Isso em todo mundo fica aquela emo\u00e7\u00e3o, n\u00e9? Ent\u00e3o, a imagem l\u00e1 fora e as coisas, os objetos que as crian\u00e7as poderiam pegar e n\u00e3o podem pegar. O guar\u00e1 n\u00e3o deixa mexer nem no m\u00f3vel. Ent\u00e3o a crian\u00e7a ia chegar l\u00e1 e ia ficar todo o tempo: Pi, Pi. E todo mundo foi crian\u00e7a e passou por isso. Ent\u00e3o a gente resolveu, a gente falou assim: \u201cVamos fazer uma ala pr\u00e1s crian\u00e7as.\u201d Ent\u00e3o, as crian\u00e7as mandam e os adultos v\u00e3o ter que se adaptar. Porque a gente percebeu que n\u00e3o podia mudar o museu inteiro. N\u00e3o podia abrir tudo e deixar. Porque assim: elas iam quebrar. Ent\u00e3o, como cuidar do museu e como cuidar das crian\u00e7as? E a\u00ed, a gente lembrou que tinha aquela ala l\u00e1 embaixo, que a gente sempre teve o sonho de fazer que nem o Louvre, n\u00e9? A gente ficava: \u201cAh, vai ter&#8230;\u201d Quando a gente via que tem as arcadas l\u00e1 embaixo, antigas, n\u00e9? Falava: \u201cVamo cavar isso aqui, fazer mais um andar que nem no Louvre.\u201d \u201cEnt\u00e3o, vamo aumentar o museu.\u201d E n\u00e3o tinha jeito, porque voc\u00ea cava, a 80 cent\u00edmetros tem \u00e1gua em Santos, \u00e9 o mar, n\u00e9? (RISOS) ent\u00e3o, a gente ficou assim: \u201cAh, n\u00e3o vai poder ter o Louvre aqui.\u201d E a\u00ed, um menino do primeiro ano falou isso assim: \u201cVamo fazer pr\u00e1s crian\u00e7as.\u201d Porque \u00e9 baixinho assim, n\u00e9? Ent\u00e3o, a crian\u00e7a pode andar como se fosse adulto l\u00e1. E o adulto, claro, vai ter que se adaptar. Vamos descontar o que a gente faz com as crian\u00e7as aqui, n\u00e9? (RISOS) S\u00f3 que a gente falou assim: \u201cEnt\u00e3o, beleza.\u201d \u201cS\u00f3 que o adulto vai ter que entrar.\u201d \u201cN\u00e3o adianta fazer baixinho que o adulto n\u00e3o vai entrar.\u201c \u201cComo \u00e9 que a gente vai fazer pro adulto entrar?\u201d \u201cAh, fazer uma coisa t\u00e3o maravilhosa, t\u00e3o espetacular que ele vai querer entrar.\u201d (RISOS) E eles entram. Porque assim: \u00e9 t\u00e3o espetacular que as crian\u00e7as baixas assim; voc\u00ea viu isso Era fim-de-semana?<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Eu gritei tanto<\/p>\n<p>R \u2013 Sempre. As crian\u00e7as descem, primeiro descem primeiro pra falar: \u201cVai l\u00e1, vai l\u00e1.\u201d o Pai n\u00e3o vai. A crian\u00e7a quando ela come\u00e7a a ver o que tem l\u00e1 dentro. \u201cPai, pai, vem.\u201d \u201cPai, pai.\u201d E o av\u00f4. Elas enchem tanto o saco que o av\u00f4 desce desesperado, assim tremendo. E quando ele chega l\u00e1 embaixo; a gente falou assim: \u201cQuando ele chegar aqui, ele vai ter que adorar\u201d \u201cEle vai querer dar a volta.\u201d Porque \u00e9 um t\u00fanel, n\u00e9?<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 N\u00e3o tem como sair, n\u00e9?<\/p>\n<p>R \u2013 N\u00e3o tem como sair. Ele entra e \u00e9 maravilhoso assim, \u201cvai\u201d vendo aquelas tocas, os peixes assim. Ent\u00e3o, a gente fez assim; bom, c\u00ea viu as imagens. Assim, fez perfeito mesmo e pra ser um lugar de sonho. E muito, a gente fez de prop\u00f3sito, por conta duma hist\u00f3ria que a gente que os \u00edndios quando falam com as crian\u00e7as, agacham, n\u00e9? Pra falar da mesma altura. Ent\u00e3o, tinha muitas hist\u00f3rias que foram surgindo nas rodas de discuss\u00e3o com os alunos, que a gente falou assim: \u201cEnt\u00e3o, se a gente conseguir fazer o v\u00f4 entrar aqui dentro&#8230;\u201d A gente pensou muito assim: O que \u201cque\u201d museu pode contribuir pra transformar uma realidade contempor\u00e2nea, que a gente n\u00e3o est\u00e1 vendo mais? Qual o papel do museu nessa hist\u00f3ria? Ent\u00e3o, tinha; a crise \u00e9: o pai n\u00e3o fica mais em casa, n\u00e3o brinca com a crian\u00e7a. Meu pai n\u00e3o tem tempo de brincar de casinha comigo. Ent\u00e3o, as gera\u00e7\u00f5es est\u00e3o mudando. Ent\u00e3o, a gente falou assim: \u201cPelo menos no museu vai ter essa experi\u00eancia.\u201d Ent\u00e3o, se o pai se agachar; a gente: \u201cN\u00e3o, essa crian\u00e7a vai adorar de ver o pai engatinhando.\u201d E \u00e9 o que aconteceu. Assim: como \u00e9 que a Arquitetura pode fazer mais do que s\u00f3 mostrar coisas belas, n\u00e9? Ent\u00e3o, as crian\u00e7as ficam; agarram os pais, a crian\u00e7a vira l\u00edder. \u201cVem c\u00e1, vem ver.\u201d \u201c\u00d3, tem isso aqui tamb\u00e9m.\u201d \u201cIsso aqui \u00e9 o peixe&#8230;\u201d E o pai vai seguindo a crian\u00e7a: \u201cOnde?\u201d \u201cOnde?\u201d Porque ela que j\u00e1 sabe. Ela est\u00e1 na frente dele, n\u00e9? J\u00e1 sabe todo, v\u00ea tudo. E o pai fica, vira crian\u00e7a, n\u00e9? Ent\u00e3o, pelo menos um espa\u00e7o; e tem v\u00e1rios depoimentos de pais que conta o pessoal do museu, amigos meus que foram e nem sabiam que foi a gente que fez, conta pra gente: \u201cOlha, pra mim foi uma experi\u00eancia espetacular, porque eu fiquei engatinhando com meu filho, sabe?\u201d \u201cLembrei do meu pai, como \u00e9 que \u00e9 brincar de casinha.\u201d \u201cRecuperei isso.\u201d Ent\u00e3o, isso mexeu com as pessoas. E teve muito nossa aprendizagem do poder que a Arquitetura tem de transformar uma realidade, sabe? De retomar uma cultura, sonho, um pouquinho disso.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 A gente vai trocar mais id\u00e9ias sobre isso.<\/p>\n<p>R \u2013 Est\u00e1 bom.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Mas eu queria que voc\u00ea continuasse nessa linha assim do poder que a Arquitetura tem de transformar a realidade e falasse do Guerreiro sem Armas. Que \u00e9 maravilhoso.<\/p>\n<p>R \u2013 Vamos fazer uma conex\u00e3o direta, vamos pular tr\u00eas anos a\u00ed. Passar r\u00e1pido durante tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Infelizmente.<\/p>\n<p>R \u2013 N\u00e3o, a experi\u00eancia do museu assim, essa coisa louca que a gente conseguiu fazer de envolver a cidade, a cidade ir l\u00e1 e dar opini\u00e3o no projeto, e torcer pra gente. A faculdade inteira torcia pra gente. Ent\u00e3o, foi uma como\u00e7\u00e3o assim, n\u00e9? Local assim, regional. A gente levava essa experi\u00eancia pros Encontros Nacionais de Estudantes de Arquitetura, regionais e nacionais. Estadual, nacional e latino-americano. Ent\u00e3o, a gente fotografava o processo inteiro, levava mat\u00e9ria de jornal, fazia uns \u201cslides\u201d. E um dos compromissos da gente tamb\u00e9m era compartilhar tudo que a gente aprendia, n\u00e3o guardar nada pra gente. Ent\u00e3o nos encontros a gente mostrava isso e virou uma como\u00e7\u00e3o nacional tamb\u00e9m. Porque n\u00e3o tinha estudantes que fazia; muitos estudantes faziam projetos pra comunidade, pra Prefeitura e nunca acontecia nada. Ent\u00e3o, voc\u00ea ficava sempre fazendo um monte de projeto e jogando fora. Quando a gente come\u00e7ou a fazer uma coisa que deu certo; ent\u00e3o, uma ano a gente \u201ctava\u201d com a id\u00e9ia, o pessoal achava maravilhoso: \u201cAh, que lindo, \u00e9 s\u00f3 ter id\u00e9ia.\u201d \u201cAh, o museu est\u00e1 deixando voc\u00eas l\u00e1?\u201d \u201cAh, que lindo tamb\u00e9m.\u201d Ent\u00e3o segundo ano mostrava; seis meses mostrava isso. Nove meses mostrava assim: \u201cA Prefeitura aprovou, o Governo do Estado aprovou isso.\u201c \u201cA Petrobr\u00e1s deu dinheiro.\u201d A\u00ed que acreditou. \u201cMas, como, era verdade?\u201d Ent\u00e3o, virou uma como\u00e7\u00e3o nacional. V\u00e1rios grupos surgindo e fazendo isso tamb\u00e9m no Brasil inteiro. Tentando fazer coisas, projetos reais e botando pra funcionar. At\u00e9 que veio um grupo da Am\u00e9rica Latina, tem um Conselho Latino-Americano de Estudantes de Arquitetura, que veio pro Brasil, j\u00e1 \u201ctava\u201d famoso o projeto, e fizeram uma reuni\u00e3o em S\u00e3o Paulo e desceram todo mundo pra santos. Umas 15 pessoas pra ver o museu. E todo mundo que chegava n\u00e3o ficava s\u00f3 vendo o museu. Que a\u00ed j\u00e1 \u201ctava\u201d em obras, \u201ctava\u201d tudo acontecendo, \u201ctava\u201d o projeto e a gente l\u00e1 no meio acompanhando a obra. E a gente fazia eles participarem com a gente, fazer um projeto junto com a gente, coletivamente. Que n\u00e3o \u00e9 muito comum pra arquiteto. Eles se apaixonaram pela id\u00e9ia e sa\u00edram de l\u00e1 sonhando que todas as universidades deviam ser assim. Ent\u00e3o, eles ficavam assim: \u201cAi, mas a gente devia fazer uma press\u00e3o, movimento, n\u00e9, latino-americano pr\u00e1s universidades fazerem assim essa coisa de fazer toda a parte de aprendizagem na cidade.\u201d \u201cEnt\u00e3o, em quanto a gente aprende vai fazendo projetos: um museu, uma escola, uma favela.\u201d Ent\u00e3o, foram sonhando isso, foram caminhando pela praia e sonharam primeiro com uma universidade assim; que a gente devia fazer um movimento, a gente mesmo pra construir isso. Depois descobriram que essa universidade ia demorar muito tempo, que eles iam; a\u00ed pensaram numa faculdade de arquitetura. A\u00ed, a faculdade de arquitetura tamb\u00e9m, come\u00e7aram a planejar o curr\u00edculo, em tudo ficavam super felizes como \u00e9 que ia ser. Mas gostaram tanto do que eles criaram. E a gente ficou trabalhando no museu, eles foram pro apartamento que a gente emprestou pra eles, n\u00e9? A\u00ed, ficaram t\u00e3o felizes com a faculdade que eles criaram, que eles faziam: \u201cN\u00e3o quero criar essa faculdade, vai demorar dez anos.\u201d \u201cEu quero estudar nessa faculdade\u201d Ent\u00e3o, falei: \u201cVamo criar um curso ent\u00e3o que possa fazer isso.\u201d \u201cA\u00ed cria o curso e faz o curso.\u201d E a\u00ed, no final eles falaram assim: \u201cN\u00e3o, a gente quer viver isso agora.\u201d Ent\u00e3o, eles fizeram um jantar latino-americano, convidaram a gente pra jantar e falaram pra gente: \u201cOlha, a gente quer que voc\u00eas fa\u00e7am um curso pra gente de um m\u00eas, de f\u00e9rias pra repassar essa metodologia que voc\u00eas est\u00e3o vivendo.\u201d \u201cA gente quer aprender isso.\u201d Ent\u00e3o eles sa\u00edram de uma universidade e foram pra um curso pra eles poderem viver isso, n\u00e9? Que eles j\u00e1 come\u00e7aram a desenhar. A\u00ed surgiu a hist\u00f3ria de Guerreiros; a gente topou de fazer isso, de repassar essa metodologia em um m\u00eas. Ent\u00e3o, a gente tinha seis meses pra organizar, conseguir dinheiro, conseguir local assim. Mas, a gente adorava desafios E fez o primeiro. Foi em 1999. S\u00f3 que a gente j\u00e1 tinha um plano de fazer, a gente tinha combinado que depois que sa\u00edsse do museu; pra fazer o museu a gente acabou pesquisando muitas culturas cai\u00e7aras. Porque a gente queria fazer um presente, n\u00e9? O museu; a maior parte do acervo que tem no museu foi doado por pescadores, s\u00f3 que n\u00e3o tem o nome deles l\u00e1. O que \u00e9 doado por doutores: \u201cAh, o ocean\u00f3grafo tal.\u201d \u201cDoado pelo doutor, n\u00e3o sei o qu\u00ea l\u00e1.\u201d Mas pescador \u00e9 desconhecido, n\u00e9? Ent\u00e3o assim, n\u00e3o tinha homenagem ao cara. Por que n\u00e3o tem o nome do seu Francisco? Ent\u00e3o a gente foi pesquisar isso e resolveu fazer a principal sala, a sala central do museu a gente fez em homenagem ao cai\u00e7ara. E foi visitar muitos cai\u00e7aras, e eles t\u00eam uma condi\u00e7\u00e3o terr\u00edvel em S\u00e3o Paulo assim, no Brasil inteiro, mas s\u00e3o miser\u00e1veis mesmo Venderam as terras muito baratas pra fazer grandes condom\u00ednios e t\u00e3o passando mal. N\u00e3o est\u00e3o pescando mais. A gente combinou que ia fazer uma coisa social. Ent\u00e3o, a gente juntou a Escola de Guerreiros com o social. Inv\u00e9s de fazer um museu, j\u00e1 trabalhava com comunidades, em favelas em comunidades cai\u00e7aras. E via como \u00e9 que esses Guerreiros sem Armas pode ajudar a mudar o mundo. Foi a\u00ed que surgiu a Escola de Guerreiros sem Armas.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Mas qual \u00e9 a miss\u00e3o do Guerreiros sem Armas?<\/p>\n<p>R \u2013 Os Guerreiros sem Armas \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o txucarram\u00e3e, n\u00e9? Foi Kak\u00e1 Wer\u00e1, que tamb\u00e9m foi l\u00e1 da Ashoka, que apresentou esse termo pra gente a primeira vez. A gente adorou. Que s\u00e3o pessoas que v\u00e3o mudar o mundo; s\u00e3o guerreiros, que t\u00eam essa qualidade de guerreiro, que n\u00e3o desiste, obstinados. S\u00e3o estrategistas, n\u00e9, e conseguem o que eles querem, mas sem usar de viol\u00eancia. Ent\u00e3o, essa id\u00e9ia de jovens que v\u00e3o mudar o mundo com o cora\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o deles; s\u00e3o jovens que sejam capazes de; hoje em dia \u00e9 mais f\u00e1cil explicar. Na \u00e9poca a gente n\u00e3o tinha essa clareza. Ent\u00e3o, vamos fazer essa ponte, n\u00e9? A gente tinha vontade de que mais pessoas; assim como o museu a gente trabalhava muito feliz e via muito desafio e cada vez mais gente chegava porque tinha essa qualidade de alegria. Percebeu que tinha alguma qualidade a\u00ed de ser empolgante. Ser um desafio empolgante. N\u00e3o uma miss\u00e3o: Vamos salvar o museu, n\u00e9? Ent\u00e3o, a gente j\u00e1 buscava essa qualidade. A gente percebeu assim que iriam pessoas capazes com essa alegria de trazer mais gente pra transformar a realidade. Que \u00e9 o que a gente fez no museu. Ent\u00e3o, todo mundo queria; a gente n\u00e3o precisava chamar Todo mundo queria vir porque; \u201cAh, eu quero ajudar.\u201d \u201cEu tenho isso aqui.\u201d \u201cEu tenho tal contato.\u201d Todo mundo que queria ajudar a gente, n\u00e3o precisava pedir, n\u00e9? Ent\u00e3o, como fazer isso pra mudar o mundo inteiro? Ent\u00e3o, os Guerreiros sem Armas seriam essas pessoas. E a gente percebeu que uma das quest\u00f5es era, principalmente, a gente tem uma apatia, uma doen\u00e7a contempor\u00e2nea que \u00e9 quase uma; \u00e9 uma apatia, mas \u00e9 mais uma paralisia. Tipo aquela do tigre, sabe? Que \u00e9 assim: \u00e9 tanta not\u00edcia ruim, \u00e9 tanta id\u00e9ia de que eu n\u00e3o sou capaz, \u00e9 t\u00e3o maior do que eu a fome na \u00c1frica. Que eu vejo, eu me sensibilizo, e depois eu vou guardando assim, selando esse sentimento que me impulsiona a fazer alguma coisa. Voc\u00ea v\u00ea aquilo, fala: \u201cQuero fazer alguma coisa.\u201d \u201cQuero recolher comida.\u201d Mas, se; A\u00ed, voc\u00ea fala assim: \u201cMas, se eu mando comida, a comida apodrece quando chega neles.\u201d Tem essas not\u00edcias t\u00e3o ruins, que voc\u00ea n\u00e3o faz nada \u201cAh, o Congresso brasileiro votou triplicar o sal\u00e1rio deles.\u201d voc\u00ea fica injuriado, mas: \u201cAh, que que eu posso fazer?\u201d ent\u00e3o, voc\u00ea apaga isso, n\u00e9, qualquer um de n\u00f3s apaga isso e volta \u00e0 vida cotidiana. \u201cEnt\u00e3o, amanh\u00e3 vou trabalhar.\u201d \u201cAh, agora tenho que fazer comida.\u201d Voc\u00ea se ocupa, n\u00e9? E n\u00e3o deixa que essa coisa natural, essa vida tomar forma. Porque voc\u00ea acha que vai ser imposs\u00edvel, voc\u00ea n\u00e3o vai conseguir mudar. Ent\u00e3o, a gente detectou que tinha essa depress\u00e3o social, cultural generalizada na sociedade que fazia com que a gente n\u00e3o \u201creaja\u201d. Ent\u00e3o, Guerreiro sem Arma \u00e9 o cara que vai transformar isso. Vai trazer uma esperan\u00e7a assim, \u00e9 meio guerreiro do arco-\u00edris tamb\u00e9m, sabe? Ent\u00e3o \u00e9 o cara que ele fala assim: \u201cOlha, \u00e9 poss\u00edvel.\u201d \u201cVale a pena.\u201d E vale a pena sonhar, sabe, utopia mesmo. N\u00e3o qualquer projeto, a gente n\u00e3o vai dar comida pra \u00c1frica, a gente vai mudar a \u00c1frica; verdejar, novamente. As pessoas v\u00e3o dan\u00e7ar ciranda, v\u00e3o tocar tambores e v\u00e3o ser muito felizes. Ent\u00e3o, o cara que vai com esse sonho, n\u00e9? Ent\u00e3o, como \u00e9 que a gente tinha que preparar esse cara? Por isso que entra tamb\u00e9m muito isso da pedagogia ind\u00edgena. Como \u00e9 que em um m\u00eas, a gente faz esse cara voltar a acreditar, ele mesmo? Por isso que o curso \u00e9 vivencial. Ent\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o fala isso em sala de aula, voc\u00ea n\u00e3o faz \u201cele\u201d com textos e poesia, ele tem que ver que isso \u00e9 poss\u00edvel E quando a pessoa v\u00ea, \u00e9 como Santos, Brasil inteiro, quando viram que a gente foi l\u00e1 e fez e a Petrobr\u00e1s patrocinou; milagre acontece \u201cAh, eu tamb\u00e9m quero\u201d \u201cQuero fazer um museu tamb\u00e9m.\u201d Ent\u00e3o, o Guerreiro sem Armas \u00e9 esse cara que traz alegria. Ele traz, ele dissolve essa apatia, a partir de mostrar que isso \u00e9 poss\u00edvel, de te convidar. E t\u00eam v\u00e1rias estrat\u00e9gias pra isso, n\u00e9? Uma dele aprender a tocar teu sonho, descobrir o que \u00e9 que voc\u00eas fazem. Ent\u00e3o, voc\u00eas sentados, s\u00f3 de ouvir a hist\u00f3ria da pessoa; a pessoa come\u00e7a a contar de onde ela veio, n\u00e9, de como \u00e9 que era a inf\u00e2ncia ela come\u00e7a a brilhar de novo. Aquela pessoa que est\u00e1 murcha, depressiva, est\u00e1 ap\u00e1tica, est\u00e1 paralisada na favela. Que est\u00e1; como se fala assim? Ela est\u00e1 hibernando pra poder sobreviver. Porque se ela for pensar em qu\u00e3o horroroso, ela se mata. Ent\u00e3o, voc\u00ea hiberna. Voc\u00ea desliga a maior parte da vida em voc\u00ea. Vive 20%. E a\u00ed voc\u00ea consegue continuar vivendo. Vai trabalhar, tr\u00eas horas de \u00f4nibus, volta, o filho n\u00e3o tem alimenta\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea consegue sobreviver, n\u00e9? Agora, se voc\u00ea lembrar que voc\u00ea podia ser feliz, \u201cvoc\u00ea\u201d d\u00f3i demais. Ent\u00e3o, voc\u00ea, n\u00e9? Ent\u00e3o, esse cara vai l\u00e1 e chacoalha isso de novo. \u201cN\u00f3s vamos ser feliz agora.\u201d Mas n\u00e3o s\u00f3 dando a not\u00edcia: \u201cVoc\u00ea pode ser feliz.\u201d \u00c0s vezes, voc\u00ea vai l\u00e1 e fala: \u201cN\u00e3o, voc\u00ea pode ser feliz, pode ser feliz.\u201d Mas a pessoa n\u00e3o vai, porque d\u00f3i. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 falar assim: \u201cVamos l\u00e1, reage Reage.\u201d Mas j\u00e1 d\u00e1 aqui; ent\u00e3o, a gente vai l\u00e1 e constr\u00f3i mesmo. Constr\u00f3i a pra\u00e7a, constr\u00f3i creche. E tem que ser r\u00e1pido pra ela acreditar, pra ela ter vontade de sair da toca, sabe? Ela olha assim: \u201cMas, como?\u201d \u201cSem dinheiro.\u201d \u201cMas ele est\u00e1 fazendo mesmo?\u201d A\u00ed voc\u00ea convida assim, convida s\u00f3 uma vez. \u201cAh, vem a\u00ed, se voc\u00ea quiser.\u201d Mas n\u00e3o fica assim: \u201cAi, vem, vem\u201d \u201cVem se quiser.\u201d E j\u00e1 sai andando. Ent\u00e3o, a pessoa fica meio assim: \u201cP\u00eara a\u00ed, se eu n\u00e3o for vou perder alguma coisa, n\u00e9?\u201d \u201cN\u00e3o est\u00e1 me enchendo o saco pra eu ir.\u201d Ent\u00e3o, ela n\u00e3o vai muito Ela sai um pouquinho, ela vai l\u00e1 olhar assim o que est\u00e1 rolando. Mas ela v\u00ea, e esse pessoal chegando, vai sendo feliz. A gente faz ciranda, e anda, pula. Ent\u00e3o, esse contexto da alegria \u00e9 essencial, sabe, essa coisa, as festas. \u00c9 muito inspirado nas culturas tradicionais, sabe? Sabe o mutir\u00e3o? Aquela fam\u00edlia n\u00e3o consegue arar a terra dela inteira a tempo de plantar tudo e colher. Ent\u00e3o, o que eles fazem? Compadres, cai\u00e7aras, eles convidam um monte de fam\u00edlias e todo mundo vem no fim-de-semana e faz um milagre no final de semana. Ara a terra inteira, com enxada. E fazem isso cantando. Ent\u00e3o, os nossos cai\u00e7aras fazem isso. Os africanos fazem isso. Os asi\u00e1ticos fazem. Fazem isso cantando e dan\u00e7ando. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 trabalho \u00e9 uma brincadeira. Enquanto eles est\u00e3o fazendo, cantando e dan\u00e7ando, a mulher est\u00e1 l\u00e1 esfolando o porco, limpando, fazendo a gordura. A\u00ed a gordura \u00e9 dividida pelas fam\u00edlias todas. Ent\u00e3o voc\u00ea tem um presente; voc\u00ea vai dar um presente e ganha um presente tamb\u00e9m. Um dia maravilhoso com os compadres, refaz os la\u00e7os. Que eles moram muito longe um do outro. Ent\u00e3o, conta as fofocas, conta as hist\u00f3rias, como \u00e9 que est\u00e1. As mulheres fazem aquela terapia entre elas na cozinha, no fog\u00e3o, fazendo farinha. Ent\u00e3o, \u00e9 toda uma celebra\u00e7\u00e3o de estar junto que uma grande festa. N\u00e3o \u00e9 um trabalho de arar a terra do compadre. \u00c9 uma grande festa, que eu dou e recebo. Ent\u00e3o, a gente come\u00e7ou a se inspirar nisso tamb\u00e9m. Como \u00e9 que esse trabalho de mudar o mundo, de mudar uma situa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 terr\u00edvel, uma terra seca, destru\u00edda, ser o motivo de uma festa pra gente.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Edgard, voc\u00eas est\u00e3o fazendo mais interven\u00e7\u00f5es urbanas, pelo que eu entendi. Ou estou errada?<\/p>\n<p>R \u2013 A gente faz qualquer lugar.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Qualquer?<\/p>\n<p>R \u2013 Por isso que a gente chama de O\u00e1sis. Onde tem deserto; podem ser desertos urbanos. Onde tiver a gente vai. J\u00e1 fez no meio da Jur\u00e9ia, n\u00e9? Ent\u00e3o, assim onde voc\u00ea precisa; \u00f3bvio que a gente foca muito o urbano porque \u00e9 onde a gente est\u00e1 e \u00e9 um grande impacto e tem bastante gente tamb\u00e9m. Mas a id\u00e9ia \u00e9 assim, a metodologia ela \u00e9 pronta pra se espalhar pra qualquer lugar.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Vamos tangibilizar um pouco. Eu queria que voc\u00ea desse o exemplo do v\u00eddeo, que eu achei t\u00e3o lindo ontem. Voc\u00ea contasse um pouco pra gente essa experi\u00eancia daquela \u00e1rea de Paquet\u00e1, n\u00e9?<\/p>\n<p>R \u2013 Paquet\u00e1? Contar de l\u00e1?<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 \u00c9. Eu achei t\u00e3o lindo. Como come\u00e7ou?<\/p>\n<p>R \u2013 Bom, Paquet\u00e1 come\u00e7ou; a comunidade de Paquet\u00e1 que s\u00e3o corti\u00e7os, n\u00e9? S\u00e3o assim, tipo, voc\u00ea sabe, s\u00e3o corti\u00e7os.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 No centro.<\/p>\n<p>R \u2013 S\u00e3o no centro hist\u00f3rico de Santos. S\u00e3o casar\u00f5es antigos, t\u00eam em S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m, t\u00eam em v\u00e1rios lugares do Brasil. que eram antigas casas de fam\u00edlias milion\u00e1rias, mas que abandonaram, foram mudar pra praia&#8230;<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Do auge do caf\u00e9.<\/p>\n<p>R \u2013 Do auge do caf\u00e9. A\u00ed foram morar em pr\u00e9dios, beira da praia, aquela moda europ\u00e9ia. E deixaram as casas l\u00e1. come\u00e7ou assim, por conta do porto, sabe, uma zona de prostitui\u00e7\u00e3o. Que at\u00e9 conviviam antes, mas a\u00ed come\u00e7ou a ficar uma coisa mais degradada, vir crime. Come\u00e7ou a ser um lugar n\u00e3o muito quisto. E eles foram se afastando. A\u00ed deteriorou de vez, n\u00e9? Ficou s\u00f3 com\u00e9rcio, essas coisas. E a\u00ed come\u00e7aram a virem muitas fam\u00edlias, que as pessoas sobre-alugam a casa. Ent\u00e3o, ficou uma fam\u00edlia inteira num quarto, n\u00e9? Ent\u00e3o, 20 fam\u00edlias numa casa s\u00f3. Ent\u00e3o, eram muitos c\u00f4modos. Ent\u00e3o, 20 fam\u00edlias numa casa s\u00f3, pra dois banheiros. Vinte fam\u00edlias e dois banheiros, se virem. Ent\u00e3o, j\u00e1 d\u00e1 pra imaginar que condi\u00e7\u00f5es que fica. J\u00e1 viram em televis\u00e3o e filme onde \u00e9 que a coisa chega assim, que grau de insalubridade tem. E essa \u00e9 uma comunidade que muita gente tentou trabalhar com eles. A Prefeitura tentou trabalhar com eles, o Servi\u00e7o Brasileiro de Apoio \u00e0s Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) tentou trabalhar com eles, o Servi\u00e7o Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) tamb\u00e9m. E ningu\u00e9m conseguia. A\u00ed fica aquela fama: eles s\u00e3o muito arredios, n\u00e3o querem saber de nada, n\u00e3o querem mudar de vida, eles s\u00e3o muito porcos, s\u00e3o muito sujos, n\u00e9? E a gente nunca tinha trabalhado; trabalhava muito com favelas, com comunidades cai\u00e7aras assim. Com lugares mais \u00e0 margem da cidade, \u201conde\u201d ningu\u00e9m vai. A gente vai, sempre procura lugares \u201conde\u201d ningu\u00e9m vai. E essa comunidade veio procurar a gente. Que a associa\u00e7\u00e3o deles, n\u00e9, duas pessoas, tinham acabado de assumir a associa\u00e7\u00e3o. Eles derrubaram o antigo l\u00edder que tinha roubado muito a associa\u00e7\u00e3o deles. Foi uma associa\u00e7\u00e3o feita pra habita\u00e7\u00e3o, pra conseguir construir casas com a Companhia do Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), com o Governo do Estado. Que nunca aconteciam. Ent\u00e3o, foram pedir ajuda pra gente pra se organizar. Porque algu\u00e9m da Prefeitura falou pra eles: \u201cOlha, vai procurar o pessoal do Elos que eles s\u00e3o \u00f3timos, eles s\u00e3o super bons, vai trabalhar com voc\u00eas.\u201d Ent\u00e3o, a Prefeitura mesmo n\u00e3o trabalhou com eles, empurrou a gente. Eles vieram trabalhar com a gente. E, logo na primeira conversa, eles j\u00e1 enlouqueceram. Porque ningu\u00e9m nunca perguntou pra eles, o qu\u00ea eles queriam. E a gente, logo de cara perguntou pra eles: \u201cQu\u00ea \u00e9 que voc\u00eas querem?\u201d Da\u00ed todo mundo j\u00e1 chega a uma solu\u00e7\u00e3o, n\u00e9? Ent\u00e3o, eles j\u00e1 brilharam o olho, j\u00e1 ficaram assim, reagiram estranho assim. A gente ficou meio assim. E eles come\u00e7aram a contar as hist\u00f3rias, ficaram assim super empolgados, ficaram apaixonados. Mas, a gente ia acabado de combinar entre n\u00f3s no Elos que a gente n\u00e3o ia pegar mais nenhuma comunidade. Est\u00e1vamos com oito na \u00e9poca. E n\u00f3s \u00e9ramos em cinco pessoas, a gente n\u00e3o dava conta, era muito trabalho, muita coisa. E a gente contou pra eles: \u201cInfelizmente, n\u00e3o vai dar.\u201d Eles ficaram assim desolados. Mas eles sa\u00edram do escrit\u00f3rio, diz que no elevador eles falaram assim: \u201cEles v\u00e3o trabalhar com a gente.\u201d \u201cSim ou sim.\u201d \u201cN\u00e3o vamos deixar escapar de jeito nenhum.\u201d \u201cS\u00e3o eles.\u201d \u201cEu sinto que s\u00e3o eles.\u201d A l\u00edder falava isso, n\u00e9? E a\u00ed voltaram do elevador, bateram na porta, falaram assim: \u201cMas, s\u00f3 uma coisa.\u201d \u201cSe a gente precisar de uma ajudazinha de voc\u00eas, porque, \u00e0s vezes&#8230;\u201d Criaram o truque de manter o contato. Quer dizer, j\u00e1 foram empreendedores desde o come\u00e7o. J\u00e1 eram empreendedores. E criaram esse truque sem a gente saber. Ent\u00e3o, combinaram entre eles, que toda semana eles iam ligar pra fazer qualquer desculpa. \u201cAh, a gente tem que fazer um of\u00edcio, como \u00e9 que faz?\u201d Pra manter contato, n\u00e9? E deu certo. Porque, tipo uns dois meses depois o Servi\u00e7o Social do Com\u00e9rcio (Sesc-Santos), convidou a gente pra organizar uma confer\u00eancia de a\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Tinha uma grande confer\u00eancia em Santos de v\u00e1rias \u00e1reas, segmentaria, crian\u00e7a, mulher e tinha esse tema que eles pediram pra gente organizar. E a gente falou: \u201cN\u00e3o vamos falar, sobre essa comunidade, vamos fazer.\u201d Ent\u00e3o, foi a desculpa que a gente teve pra fazer um trabalho com eles. Chamamos eles de novo, ent\u00e3o a gente falou: \u201cVamos fazer ent\u00e3o.\u201d Criamos esse jogo, foi a primeira experi\u00eancia do O\u00e1sis, n\u00e9? Ent\u00e3o, fala: \u201cA gente n\u00e3o vai trabalhar com voc\u00eas um m\u00eas, mas vai ter um fim-de-semana.\u201d \u201cNesse um fim-de-semana a gente vai dar um \u201cstart\u201d comunit\u00e1rio, pra voc\u00eas despertarem, depois voc\u00eas tocam.\u201d \u201cEst\u00e1 bom?\u201d \u201cEst\u00e1.\u201d E a gente criou esse jogo de dois dias. Ent\u00e3o, convidou gente da cidade inteira, mais a comunidade inteira. Pedimos pra comunidade fazer todo o levantamento de recursos que eles tinham. \u201cAh, mas n\u00e3o temos dinheiro.\u201d \u201cO qu\u00ea voc\u00eas tiverem.\u201d \u201cTem plantinha da dona Joana?\u201d \u201cEla vai doar tr\u00eas plantinhas?\u201d \u201cEssa plantinha.\u201d \u201cTem pedra n\u00e3o sei aonde?\u201d \u201cTem paralelep\u00edpedo solto?\u201d \u201cJunta o que voc\u00eas t\u00eam.\u201d Primeiro, fizemos eles sonharem, n\u00e9? \u201cQuais s\u00e3o os sonhos de voc\u00eas?\u201d \u201cQue \u00e9 que \u00e9 prioridade?\u201d A\u00ed come\u00e7aram a falar que era lugar de lazer, um futuro melhor pras crian\u00e7as. E falamos: \u201cQue \u00e9 que seria isso materializado?\u201d A\u00ed come\u00e7aram a sonhar v\u00e1rias coisas. \u201cAh, uma pra\u00e7a, uma pra\u00e7a.\u201d Ent\u00e3o: \u201cO que \u00e9 que tem de recursos aqui?\u201d tinha um terreno vazio que tinha sido uma pra\u00e7a e \u201ctava\u201d; jogavam lixo. Era um grande terreno baldio, n\u00e9?<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Est\u00e1 cheio de lixo<\/p>\n<p>R \u2013 Cheio de lixo. Que era maravilhoso pra ser uma pra\u00e7a. Ent\u00e3o, se voc\u00ea olhasse por tr\u00e1s do lixo, era uma pra\u00e7a. Ent\u00e3o, eles n\u00e3o viam aquilo como recurso, viam como um horror. Mas, a gente falou: \u201cOlha, tem isso aqui, \u00f3 o espa\u00e7o que tem.\u201d \u201cIsso podia ser uma pra\u00e7a.\u201d \u201cAh, mas esse lixo.\u201d \u201cO espa\u00e7o est\u00e1 a\u00ed.\u201d Ent\u00e3o, eles come\u00e7aram a entender que o sonho podia virar realidade. Chamamos a pessoa da cidade inteira, criamos o jogo, que \u00e9 super divertido assim. As pessoas projetam mesmo as maquetes; eles conseguiram um monte de palmeiras, que eles tinham o sonho de ter palmeiras. Projeta tudo isso e no dia seguinte, ningu\u00e9m sabe disso, s\u00f3 a comunidade, a gente convida todo mundo pra ir construir. E a\u00ed foi aquela farra; eu at\u00e9 tenho essa; mas \u2013 eu tenho \u2013 essas imagens. E o pessoal constr\u00f3i. Tem um dia pra construir. Tem que ter essa qualidade de milagre mesmo. Pr\u00e1s pessoas pararem e falarem assim: \u201cMas gente, eu t\u00f4 aqui h\u00e1 30 anos esperando um espa\u00e7o de lazer.\u201d \u201cPor qu\u00ea eu n\u00e3o fiz at\u00e9 hoje?\u201d A id\u00e9ia \u00e9 chegar no final, eles falarem: \u201cA madeira tava aqui, a pedra sempre teve aqui, o resto teve aqui, o espa\u00e7o sempre teve aqui.\u201d \u201cPor que eu n\u00e3o fiz?\u201d \u201cSe a m\u00e3o est\u00e1 aqui?\u201d N\u00e3o precisava nem ter vindo o pessoal da cidade inteira. Que no final das contas quem constr\u00f3i mesmo \u00e9 a comunidade, quem constr\u00f3i melhor. Ent\u00e3o, a experi\u00eancia foi maravilhosa. E essa que voc\u00ea viu no v\u00eddeo, na verdade, j\u00e1 foi a Escola de Guerreiros sem Armas. Tr\u00eas anos depois dessa experi\u00eancia. A gente tem um outro lugar que \u00e9 muito mais complicado, que \u00e9 aquele que voc\u00ea viu a cena. Que \u00e9 uma grande f\u00e1brica antiga. Que \u00e9 um lugar que ele ficou abandonado \u2013 acho que \u2013 11 anos, uma coisa assim, nove, 11 anos. E \u00e9 um lix\u00e3o. Ent\u00e3o, lixo hospitalar assim. \u2013 N\u00e3o sei \u2013 como foi tanto lixo l\u00e1 pra dentro assim, uma altura de uns 50 cent\u00edmetros de lixo numa \u00e1rea de 80 metros por 50 metros. \u00c9 muita coisa. E a\u00ed, o pessoal usava pra acerto de contas. Morreu muita gente l\u00e1 dentro. O pessoal do tr\u00e1fico usava pra acerto de contas. Ent\u00e3o, morador de rua, mora ali dentro. Ent\u00e3o, a pol\u00edcia toda semana tem um dia marcado que vai l\u00e1 e bate neles. Pra manter a disciplina, o respeito. Ent\u00e3o, um lugar que era assim, que era de dor, muita dor. E na Escola de Guerreiros sem Armas, a gente foi transformar essa realidade. Em frente ao cemit\u00e9rio, tem um monte de quest\u00f5es bem complicadas. Mas, a gente usou isso pra trabalhar com os Guerreiros como um desafio de, a gente usou pra eles assim: Qual \u00e9 o tipo de desafio que voc\u00ea vai ter, se voc\u00ea quiser de fato mudar o mundo em trevas? Porque a comunidade chama esse lugar; uma comunidade de corti\u00e7o que j\u00e1 \u00e9 trevas, chama esse lugar de Trevas, pra eles, n\u00e9? Ent\u00e3o, a gente usou esse exerc\u00edcio na Escola de Guerreiros, agora com jovens do mundo inteiro, pra treinar, sabe? Se voc\u00ea for pra \u00c1frica que realidade voc\u00ea vai pegar? A parte ruim da \u00c1frica. Que tipo de qualidade, de energia, de habilidade voc\u00ea vai ter que ter pra lidar com isso? Que ali eles exercitaram isso. Foi forte Foi. Usaram muitos talentos. Ent\u00e3o, o pessoal da \u00c1frica cantou, por exemplo, m\u00fasicas sagradas pra limpar o espa\u00e7o.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Isso \u00e9 que eu ia falar: agregar pessoas de lugares t\u00e3o diferentes&#8230;<\/p>\n<p>R \u2013 \u00c9 isso \u00e9 o nosso sonho<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Por uma causa comum.<\/p>\n<p>R \u2013 A gente acredita; no Elos, n\u00f3s somos em cinco, n\u00e9? O Rodrigo, a Mariana, Natasha; eu e o Alexandre, os fundadores. O Alexandre saiu, agora somos oito. Tem mais a Amy, a Val, a Ta\u00eds. Amy, a Val e a Ta\u00eds. Ent\u00e3o, o grupo cresceu um pouco mais. Mas, a gente sonha assim; o Guerreiros sem Armas \u00e9 um sonho nosso e de jovens que v\u00e3o mudar o mundo mesmo. O mundo como est\u00e1 hoje, a gente quer mudar Tem um projeto claro pra isso. E a nossa a\u00e7\u00e3o disso \u00e9 construindo o\u00e1sis. Ent\u00e3o, como foi essa pra\u00e7a e esse centro cultural que muda toda a din\u00e2mica da comunidade. Eles come\u00e7am a mudar, sai da espiral de dor, de mis\u00e9ria e come\u00e7a a ser uma espiral de vida. Eles come\u00e7am a querer sonhar coisas: \u201cVamos fazer capoeira, vamo fazer jud\u00f4 pr\u00e1s crian\u00e7as, vamos fazer festa.\u201d Eles mudam a energia mesmo do local, essa apatia. A gente quer fazer isso no mundo inteiro. E passar; a gente sabe que n\u00e3o consegue construir a realidade inteira no mundo inteiro, n\u00e3o d\u00e1 pra fazer tudo isso. Mas, a gente pode passar e dar um sopro. E que o verde come\u00e7a a brotar, entendeu? Que as pessoas j\u00e1 t\u00eam isso, n\u00e3o precisa levar isso pr\u00e1s pessoas, est\u00e1 dentro da gente A gente costuma falar isso: \u201c\u00c9 como se a gente fosse chama.\u201d Mas muitos de n\u00f3s est\u00e1 uma brasa, apagou a chama, e outros est\u00e3o carv\u00e3o. Mas, mesmo esse carv\u00e3o tem um pontinho vermelho l\u00e1 dentro que a gente n\u00e3o est\u00e1 vendo. Ent\u00e3o, a gente quer chegar l\u00e1 e soprar. Sabe, quando voc\u00ea fica soprando, n\u00e9? Que nem fazer uma fogueira, voc\u00ea sopra. A gente n\u00e3o precisa mexer, sabe, transformar a pessoa numa brasa. A pessoa j\u00e1 \u00e9, potencial da brasa Ela n\u00e3o est\u00e1. Ent\u00e3o, a gente precisa fazer uma coisa muito simples que \u00e9 soprar. Ent\u00e3o, soprar com a nossa alegria, com a nossa dan\u00e7a, com a nossa iniciativa. E vai. E as pessoas v\u00e3o se incendiando. \u201cAi tamb\u00e9m quero, tamb\u00e9m quero.\u201d \u00c9 um pouquinho dessa forma. Voc\u00ea falou de gente t\u00e3o distante. A gente percebe assim: tem uma estrat\u00e9gia por tr\u00e1s disso. Se \u00e9 que a gente vai mudar o mundo, vai ter uns desafios muito grandes. Aquilo que o ser humano sempre teve. Como \u00e9 que vai ser quando a gente chocar com algu\u00e9m que \u00e9 muito diferente da gente? Ent\u00e3o, Palestina e Israel? Como \u00e9 com algu\u00e9m de uma religi\u00e3o diferente? Uma l\u00edngua diferente? Costumes; valores diferentes? Ent\u00e3o, esse Guerreiro sem Armas tamb\u00e9m tem que aprender a lidar com isso. Ent\u00e3o, como \u00e9 que \u00e9 que eu vou criar um jeito? Vem gente do mundo inteiro: paquistaneses, africanos&#8230;<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Continuando, ontem voc\u00ea falou uma coisa super interessante e deu pra perceber muito no v\u00eddeo. Tem uma alegria das pessoas, um envolvimento.<\/p>\n<p>R \u2013 Tem. \u00c9.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Um prazer.<\/p>\n<p>R \u2013 Tem. A energia; a gente foi sacando com o tempo que, primeiro uma: a gente era muito novo, n\u00e3o somos t\u00e3o novos agora, mas a gente era muito novo. E n\u00e3o dava; acho que o planeta \u2013 a nosso ver \u2013 ou a vida do Homem no planeta n\u00e3o tinha tanto tempo. Pra gente ensinar toda uma nova cultura. Ensinar as pessoas a come\u00e7arem a amar umas \u00e0s outras. Ensinar elas que tem que cuidar. S\u00e3o gera\u00e7\u00f5es que demoram pra essa educa\u00e7\u00e3o. Ou ent\u00e3o, uma guerra Um choque muito forte, que a cultura muda e todo mundo come\u00e7a; a Europa mudou por conta disso. As pessoas urinavam na rua um s\u00e9culo antes. De repente com a Guerra que tudo ruiu, come\u00e7aram a querer cuidar. Ent\u00e3o, o Brasil n\u00e3o teve essa sorte e esse azar. Ainda bem, n\u00e9? Teve muitas guerras que foram escondidas, mas enfim&#8230; Ent\u00e3o, a gente pensou que n\u00e3o ia dar tempo. Ent\u00e3o, a gente come\u00e7ou a mapear o qu\u00ea que \u00e9 que j\u00e1 tem naturalmente na gente que, de repente, est\u00e1 escondido. Mas, que tem uma super energia de transforma\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, inv\u00e9s de ficar tentando educar as pessoas que ela tem que fazer, n\u00e3o sei o qu\u00ea l\u00e1; adestrar as pessoas pra isso: cuidar do seu lugar, gostar de biblioteca, gostar do patrim\u00f4nio p\u00fablico, gostar da rua. O qu\u00ea que naturalmente eles v\u00e3o fazer por impulso? Desde que sejam convidadas. Ent\u00e3o: festa, brasileiro adora. E depois, descobri que o mundo inteiro adora. Alegria. A energia que vem da alegria \u00e9 muito poderosa. E \u00e9 mais poderosa que a alegria que vem do comprometimento, do que a energia que vem do comprometimento assim: Agora vou trabalhar, eu preciso ganhar dinheiro, n\u00e9? A alegria que explode numa Copa do Mundo, que a gente sai decorando a rua. Numa festa junina, que as pessoas saem doando e n\u00e3o pensam que o seu est\u00e1 doando mais ou menos. \u201cAh, vou trazer pipocas.\u201d \u201cTrazer pipocas na festa.\u201d Entendeu? E d\u00e1 pr\u00e1s crian\u00e7as. Ent\u00e3o, essa coisa, a rela\u00e7\u00e3o de doa\u00e7\u00e3o que eu tenho para com as crian\u00e7as. Ent\u00e3o, tem um monte de c\u00f3digos gen\u00e9ticos ou culturais com a gente h\u00e1 tanto tempo, que j\u00e1 s\u00e3o naturais que a gente tinha que estimular isso acontecer. Mas, direcionar isso n\u00e3o s\u00f3 pra uma Copa do Mundo que \u00e9 ef\u00eamera, n\u00e9, vshiiii, e some. O carnaval. Olha quanta energia que o Brasil joga no carnaval. Energia de dinheiro, de recursos, de medica\u00e7\u00e3o, de talentos humanos, \u00e9 muita coisa. Mas com uma alegria em sete dias, depois some. Por que essa alegria? Se ela fosse convidada em outros momentos, n\u00e3o vem tamb\u00e9m? Se a gente conseguisse fazer uma liga\u00e7\u00e3o, uma ponte uma com a outra, ser\u00e1 que n\u00e3o ia mudar a realidade? Ent\u00e3o, a gente come\u00e7ou a buscar isso. E conseguimos coisas bem legais. Por exemplo, como o Ashoka fala: \u201cTodo mundo pode mudar o mundo.\u201d E pode. Est\u00e1 disposto a fazer isso. Mas, algumas coisas os impedem. A gente mapeou o que s\u00e3o essas coisas que fazem voc\u00ea n\u00e3o sair correndo que nem voc\u00ea sai pro carnaval, pra sair ajudando, n\u00e9? Ent\u00e3o, alegria \u00e9 b\u00e1sico. \u201cSe\u201d \u00e9 uma festa voc\u00ea n\u00e3o precisa convidar. A pessoa j\u00e1 sai se oferecendo. Voc\u00ea n\u00e3o precisa sensibilizar ela, escrever um convite; a pessoa: \u201cAh, posso ir tamb\u00e9m?\u201d Ela j\u00e1 se convida. Voc\u00ea n\u00e3o gasta energia fazendo isso. A gente gasta energia criando uma atmosfera, sabe? voc\u00ea quer que as pessoas conversem na tua casa? Quer que v\u00e1rios amigos seus de lugares diferentes se conhe\u00e7am? voc\u00ea faz uma festa que voc\u00ea bota o qu\u00ea? Bota um monte de almofada no ch\u00e3o, deixa um \u201cviol\u00e3ozinho\u201d ali no canto, bota uma \u201cmusiquinha\u201d meio som ambiente. Voc\u00ea estimula. Voc\u00ea n\u00e3o vai falar pr\u00e1s pessoas: \u201cAi, voc\u00eas sejam amigos, gente.\u201d \u201cEu trouxe voc\u00eas aqui, pra voc\u00eas serem todos amigos, t\u00e1 bom?\u201d \u201cVamos combinar?\u201d As pessoas v\u00e3o fugir de voc\u00ea, n\u00e3o v\u00e3o ser teus amigos. N\u00e3o v\u00e3o ficar l\u00e1. eu n\u00e3o vou, se voc\u00ea me convidar. Ent\u00e3o, assim, sabe? Mas, voc\u00ea cria uma atmosfera que elas n\u00e3o precisam nem saber. Mas, tem almofada no ch\u00e3o \u00e9 mais despojado, n\u00e9? Senta assim. Voc\u00ea n\u00e3o vai convidar a fam\u00edlia do teu namorado ou do teu pretendente pra um jantar sentado no ch\u00e3o, vai ter uma mesa, uns cristais, outro ambiente mais formal pra se apresentar, n\u00e9? Ent\u00e3o, sai, a gente vai criando; \u00e9 muito de arquiteto isso, a gente cria um ambiente pra que isso acontece. E o ambiente pra que essas situa\u00e7\u00f5es que a gente queira aconte\u00e7a, \u00e9 um ambiente onde teu talento \u00e9 muito bem-vindo e reconhecido. Em que a gente n\u00e3o olha, n\u00e3o v\u00ea, n\u00e3o vibra escassez, mas vibra abund\u00e2ncia. Ent\u00e3o, em qualquer lugar t\u00e1 cheio de recursos. Em qualquer lugar. No deserto, areia \u201c\u00e9\u201d recursos. T\u00eam cidades inteiras que foram constru\u00eddas com aqueles recursos que t\u00eam l\u00e1: areia, \u00e1gua, a lama de uma certa planta. O Egito fez um imp\u00e9rio inteiro assim. N\u00e3o \u00e9 que deserto \u00e9 nada. \u00c9 muita coisa acontecendo ali. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem que olhar, n\u00e9? Ent\u00e3o, o que a gente foi aprendendo a fazer \u00e9 mudar esse olhar. Ao inv\u00e9s de voc\u00ea ver uma favela; tudo que voc\u00ea aprendeu que \u00e9 favela; voc\u00ea vai focar o teu l\u00e1 e vai ver a dona Joana que tem um monte de latinha de ervilha, de \u00f3leo, que \u00e9 o recurso que ela tinha e com flores maravilhosas.flores que n\u00e3o tem no orquid\u00e1rio. N\u00e3o tem na melhor floricultura que voc\u00ea foi, entendeu? Porque tem muito amor naquela flor. Ent\u00e3o, voc\u00ea olha na favela voc\u00ea v\u00ea isso, voc\u00ea n\u00e3o fica s\u00f3 vendo a favela e: Que horror, a Prefeitura devia fazer alguma coisa. Ent\u00e3o, a gente v\u00ea essa dona Maria, a gente vai correndo l\u00e1. Porque a vida t\u00e1 l\u00e1. Onde \u00e9 que t\u00e1 o belo escondido? Onde \u00e9 que t\u00e1 o belo na favela? voc\u00ea vai correndo l\u00e1 e come\u00e7a a conversar com a dona Maria, pergunta a hist\u00f3ria dela. Que \u00e9 o que voc\u00eas fazem. A\u00ed, eu chamo voc\u00eas. Dona Maria come\u00e7a a contar, porque primeiro ela fica surpresa que algu\u00e9m percebeu. Porque aquilo l\u00e1 \u00e9 a vida dela. Ela criou. J\u00e1 que aqui \u00e9 tudo horror, eu vou criar um espa\u00e7o de beleza pra mim, pra eu sobreviver. Tem a dona Joana, por exemplo, o qu\u00ea que ela faz? Ela pendura a roupa dela; tem que lavar roupa o dia inteiro pra ganhar dinheirinho, entendeu? S\u00f3 que ela n\u00e3o se d\u00e1 por vencida. O que ela faz? Ela pendura a roupa dela em degrad\u00ea. Ela faz um arco-\u00edris com as roupas. Ent\u00e3o, o branquinho, amarelinho mais \u201cclarinho\u201d beb\u00ea, amarelo mais escuro, laranja, vermelho, lil\u00e1s. E \u00e9 um arco-\u00edris. Todo dia que tem loja \u00e9 um arco-\u00edris na casa dela. E ningu\u00e9m v\u00ea, mas ela sabe. Agora quando algu\u00e9m v\u00ea, reconhece. Que nem a gente, quando algu\u00e9m reconhece alguma coisa que voc\u00ea adora fazer, voc\u00ea adora escrever t\u00e1 l\u00e1 sozinha escrevendo, ningu\u00e9m sabe. Esconde, porque voc\u00ea tem medo, uma coisa t\u00e3o valiosa. A\u00ed, se algu\u00e9m pega, sem querer, e gosta; se algu\u00e9m pega, voc\u00ea fica possesso, n\u00e9? Mas, se gosta vira a melhor amiga do mundo pra voc\u00ea. \u201cAh, voc\u00ea gostou?\u201d Mesmo que voc\u00ea n\u00e3o acredita, fica testando: \u201cAh, mas \u00e9 isso mesmo?\u201d Dona Maria fica testando a gente: \u201cGostou da minha roupa?\u201d \u201cMas como \u00e9 que voc\u00ea reparou na minha roupa?\u201d Mas, depois ela viu que \u00e9 de verdade, que n\u00f3s estamos ligando, a\u00ed ela come\u00e7a a contar: \u201cSabe o que \u00e9 que \u00e9?\u201d \u201cDesde pequena eu sempre gostei de cores.\u201d Ah \u201cE se voc\u00ea j\u00e1 reparou, vem c\u00e1, vem c\u00e1 comigo.\u201d \u201cEu vou te mostrar aqui tamb\u00e9m.\u201d \u201cEsse aqui voc\u00ea n\u00e3o tinha visto.\u201d \u201cOlha essas aqui que espet\u00e1culo.\u201d Ela come\u00e7a a contar e vai pegando fogo. A gente junta a dona Maria, junta a dona Joana, junta o seu Joaquim que fazia barcos no Nordeste. Ent\u00e3o, essa hist\u00f3ria volta a virar realidade agora. Quando eles contam as hist\u00f3rias. Bota todo mundo junto e fala assim: \u201cAh, voc\u00ea n\u00e3o conhece a hist\u00f3ria da dona Joana.\u201d A\u00ed, voc\u00ea come\u00e7a a contar. \u201cDona Joana, conta.\u201d Quando ela come\u00e7a a contar ela v\u00ea que os olhos do pessoal da comunidade dela tamb\u00e9m gostam. A\u00ed: \u201cPosso contar a minha agora?\u201d \u201cConta, conta a\u00ed.\u201d A\u00ed come\u00e7a a chegar crian\u00e7as, come\u00e7a a chegar outras pessoas, a\u00ed v\u00e3o ficando personagens que jamais sabiam que tinha tudo aquilo. E a\u00ed, cria o clima bom de construir. Ent\u00e3o, a gente fala assim: \u201cEst\u00e1, e o que a gente pode fazer junto com tudo isso a\u00ed?\u201d Que beleza. Com o conhecimento de coisas de dona Joana, com as plantinhas da dona Maria. \u201cAh, vamos fazer uma pra\u00e7a\u201d E o seu Joaquim faz aqueles barcos espetaculares, faz os bancos, que n\u00e3o \u00e9 qualquer banco, que em nenhum lugar tem. E a\u00ed, a gente come\u00e7a a provocar. Fala assim: \u201cOlha, mas eu n\u00e3o quero qualquer pra\u00e7a.\u201d \u201cEu quero assim uma pra\u00e7a melhor que a do Gonzaga.\u201d Que \u00e9 na praia, n\u00e9? Porque a gente gosta daquela disputa. Eu quero, quando as pessoas chegarem aqui ela v\u00e3o ter que falar que o Gonzaga; elas v\u00e3o ficar morrendo de inveja. Ent\u00e3o, eles come\u00e7am a se animar: \u201cAi vamos, vamos, vamos.\u201d A\u00ed faz. Essas coisas s\u00e3o do ser humano, n\u00e9? Brincar at\u00e9 com algumas coisas que s\u00e3o meio negativas, n\u00e9? Com a sua inveja, n\u00e9? Gonzaga vai morrer de inveja da gente Tipo assim o Morumbi vai chegar aqui, vai falar: \u201cEu quero um desses.\u201d A gente fala assim: \u201cN\u00e3o pode.\u201d \u201cS\u00f3 aqui.\u201d \u201cTem uma aqui, mas n\u00e3o vai ter.\u201d \u201cSinto muito.\u201d Ent\u00e3o, essa coisa, que naturalmente voc\u00ea quer. \u201cVamo fazer, vamo fazer agora.\u201d E a\u00ed constr\u00f3i. Construiu a primeira; geralmente, busca espa\u00e7os p\u00fablicos que a\u00ed mais pessoas; que j\u00e1 \u00e9 um treinamento de doa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, eles v\u00e3o fazer uma coisa n\u00e3o s\u00f3 pra eles. Vai ser pra eles. V\u00e3o ficar muito felizes, v\u00e3o ser super realizados, mas a gente fica muito mais feliz; qualquer ser humano fica muito mais feliz quando eu me dou; isso \u00e9 uma coisa tamb\u00e9m que d\u00e1 muita energia na gente, talvez a mais forte. Quando a gente se d\u00e1 conta de que a gente foi realmente importante pra algu\u00e9m. Que \u00e9 a nossa atua\u00e7\u00e3o foi realmente significativa, pra vida de outras pessoas ficarem mais maravilhosas. Que \u00e9 o que o Marshall da Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Violenta fala assim. Que um dos maiores prazeres que a gente tem, e muita gente acredita que \u00e9 o maior prazer. \u00c9 quando eu me dou conta, quando eu sinto que eu tornei a vida de algu\u00e9m mais maravilhosa.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Fant\u00e1stico. Nossa, tanta coisa<\/p>\n<p>R \u2013 Os Guerreiros sem Armas s\u00e3o isso. S\u00e3o jovens que v\u00e3o lembrar pras pessoas que a vida delas \u00e9 maravilhosa.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 N\u00e3o s\u00e3o necessariamente arquitetos?<\/p>\n<p>R \u2013 N\u00e3o.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Esses jovens chegam&#8230;<\/p>\n<p>R \u2013 Come\u00e7ou com arquitetos porque \u00e9 o que a gente dava conta, o primeiro ano. Mas, j\u00e1 no primeiro ano um monte de gente que via; porque a gente mandou pr\u00e1s faculdades de arquitetura, n\u00e9? Os cartazes. Mas, gente de outros cursos \u201cviam\u201d, \u201cenlouqueciam\u201d A\u00ed, come\u00e7ava a escrever cartas. Alguns xingavam a gente. \u201cMas, como \u00e9 que pode?\u201d \u201cE a democracia?\u201d Falou assim: \u201cPode\u201d \u201cA gente \u00e9 que manda.\u201d \u201cO curso \u00e9 nosso.\u201d \u201cN\u00e3o vai vir, pronto\u201d Era tanta gente escrevendo que a\u00ed eles viam, e escreviam cartas chorosas, n\u00e3o sei o qu\u00ea l\u00e1. Porque a carta tinha que nos emocionar, n\u00e9? Ent\u00e3o, eles; um dos crit\u00e9rios \u00e9: Voc\u00ea tem que escrever uma carta dizendo por qu\u00ea voc\u00ea quer participar da Escola de Guerreiros sem Armas. E o crit\u00e9rio \u00e9: Se a carta; quanto mais nos fizer chorar, mais chance voc\u00ea tem. E eles caprichavam. Ent\u00e3o, eles faziam voc\u00ea chorar bem. A\u00ed falava: \u201cVamos, ter que deixar esse menino vir.\u201d \u201cTudo bem que ele \u00e9 m\u00e9dico, jornalista, mas vamos deixar ele vir e vamos ver o que acontece.\u201d Agora esse \u00faltimo ano, por exemplo, essa \u00faltima Escola de Guerreiros, que foi mundial; que foi agora em janeiro. A\u00ed veio jovem; a gente abriu tudo Ent\u00e3o, veio morador de rua, jovem morador de rua, vieram ind\u00edgenas do meio do Acre, oito horas de barco de qualquer cidade, veio universit\u00e1rio, veio milion\u00e1rio, veio tudo: mexicano, paquistan\u00eas, tinha essa menina que n\u00e3o podia ser tocada, sempre com a burca.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 \u00c1rabe?<\/p>\n<p>R \u2013 Paquistanesa. E veio, todo mundo tem que andar junto. E, foi m\u00e1gico assim. E tamb\u00e9m era uma utopia pra gente. \u201cSei l\u00e1 se vai funcionar.\u201d \u201cMas, vamos fazer.\u201d Que nem o museu. \u201cAh&#8230;\u201d<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 \u00c9 melhor que as Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>R \u2013 Ah, \u00e9 muito mais legal \u201cAh, mas e tradu\u00e7\u00e3o ra tudo isso?\u201d \u201cAh, n\u00e3o sei.\u201d \u201cAs pessoas v\u00e3o se virar.\u201d E no come\u00e7o eles queriam matar a gente: \u201cAh, mas como um curso t\u00e3o caro e t\u00e3o dif\u00edcil e voc\u00eas n\u00e3o pensaram a tradu\u00e7\u00e3o.\u201d Falei; \u201cAh, mas tem tradu\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas.\u201d \u201cAh, mas tem tanta gente diferente.\u201d \u201cAh gente, voc\u00eas se viram.\u201d Ent\u00e3o, ficava assim no come\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Um desafio, n\u00e9?<\/p>\n<p>R \u2013 Desafio de voc\u00ea, a sensa\u00e7\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 nosso o desafio \u00e9 do planeta. E depois, a gente; deixava eles entrar bastante, a\u00ed quando entraram bastante, falei: \u201cEst\u00e1.\u201d \u201cSe voc\u00ea for trabalhar na \u00c1frica, tsunami;\u201d \u201cVoc\u00ea quer salvar o mundo, n\u00e3o quer?\u201d \u201cHelic\u00f3pteros, chega l\u00e1 e a pessoa n\u00e3o fala a sua l\u00edngua.\u201d \u201cO que voc\u00ea vai fazer?\u201d \u201cAh, onde est\u00e1 o outro avi\u00e3o?\u201d \u201cO tradutor?\u201d \u201cA Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) n\u00e3o mandou?\u201d \u201cAhnnn.\u201d Voc\u00ea vai morrer? A gente fala sempre palha\u00e7ada tamb\u00e9m, porque eles ficam bravos, a gente come\u00e7a a fazer palha\u00e7ada com eles. N\u00e3o leva a s\u00e9rio assim, sabe? \u201cEst\u00e1 brigando por qu\u00ea\u201d \u201cVoc\u00ea n\u00e3o quer mudar o mundo?\u201d \u201cVai, vai, corra, corra, corra\u201d E o curso \u00e9 vivencial, ent\u00e3o \u00e9 aprender, fazendo. Que eles adoram isso. S\u00f3 que eles pensam que aprender fazendo \u00e9 assim: a gente vai dar uma atividade, uma din\u00e2mica e eles v\u00e3o fazer. N\u00e3o Vai entrar no meio daquele lixo, no meio daquela lama. \u201cMas aqui vai contaminar, voc\u00eas s\u00e3o respons\u00e1veis.\u201d \u201cO que que voc\u00ea vai fazer pra n\u00e3o ser contaminado?\u201d \u201cO mundo precisa ser salvo.\u201d A gente d\u00e1 exemplos, n\u00e9? \u201cVai fazer que nem o seu Governo?\u201d \u201cPorque o seu Governo est\u00e1 vendo esse lixo, tamb\u00e9m n\u00e3o faz nada e fala exatamente o que voc\u00ea est\u00e1 falando.\u201d \u201cN\u00e3o \u00e9 isso que ele fala?\u201d \u201cN\u00e3o d\u00e1 pra fazer nada, porque esses caras s\u00e3o pobres.\u201d \u201cVai continuar fazendo?\u201d \u201cEnt\u00e3o, o que voc\u00ea vai fazer?\u201d A\u00ed come\u00e7a a gostar dessa id\u00e9ia, n\u00e9? De ficar livre.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Edgard, pra gente come\u00e7ar a finalizar.<\/p>\n<p>R \u2013 Ah, vai come\u00e7ar a finalizar?<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Uma ou duas perguntas assim. Ontem a gente falou muito da Ashoka, n\u00e9? Mas, como \u00e9 teu ingresso na Ashoka? Foi na Argentina ano passado&#8230;<\/p>\n<p>R \u2013 Foi.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Como teu ingresso na Ashoka potencializou a sua atua\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>R \u2013 Hum. Consigo detectar acho que duas maneiras f\u00e1ceis. Bom, a primeira que acho; n\u00e3o sei se falam isso, mas todos sentem isso: foi a impactante a metodologia de entrevista. Foi muito poderoso \u201cpra mim\u201d poder relembrar de onde eu vim. Qual foi a caminhada que eu fiz pra; eu fiz e que a gente fez no Elos pra chegar onde a gente chegou pra fazer isso. Ent\u00e3o, foi por conta dessa entrevista que eu fui lembrar da quest\u00e3o do Nazismo, essa hist\u00f3ria assim de fazer a conex\u00e3o de uma coisa com a outra, n\u00e9? Isso acontece com muitos fellows. Ent\u00e3o voc\u00ea relembrar essa caminha. O que \u201cque\u201d est\u00e1? Qual \u00e9 o adubo desse solo que voc\u00ea est\u00e1 semeando? Isso foi impressionante, dessa consci\u00eancia mais ampla, mais hol\u00edstica, do meu vibrar, n\u00e9? Isso foi uma super contribui\u00e7\u00e3o, inestim\u00e1vel. Outra coisa, que \u00e9 outro papel da Ashoka tamb\u00e9m, essa coisa de bancar, ter uma sustenta\u00e7\u00e3o financeira por tr\u00eas anos. \u00c9 um f\u00f4lego assim. Voc\u00ea ter que fazer, mudar o mundo, pagar o aluguel, deixar dinheiro em casa, ou deixar as pessoas sofrendo em casa porque n\u00e3o tem dinheiro, n\u00e9? Essa preocupa\u00e7\u00e3o; ent\u00e3o, a carne que sai, e voc\u00ea poder ser s\u00f3 criativo sabendo que voc\u00ea tem esse respirar. E, principalmente, porque tamb\u00e9m \u00e9 um respirar que tem um tempo. \u2013 Eu adoro \u2013 isso tamb\u00e9m Jamais eu queria ser sustentado pela Ashoka ou por qualquer pessoa, n\u00e9? Isso mata, na verdade, o protagonismo. Voc\u00ea ser sustentado mata a sua criatividade. Ent\u00e3o, tem que ter um pouquinho de dor, de medo a\u00ed. Ent\u00e3o \u2013 acho \u2013 que isso tamb\u00e9m \u00e9 pouco; bem o que a Ashoka faz, ela te d\u00e1 o suficiente, n\u00e9? Mas, d\u00e1 um f\u00f4lego muito bom. Ent\u00e3o, acho que isso \u00e9 o grande; \u00e9 uma outra quest\u00e3o. E outra quest\u00e3o ainda ins\u00edpida, que eu vejo como super valor, mas que a Ashoka est\u00e1 come\u00e7ando isso agora e que pra gente \u00e9 essencial h\u00e1 muito tempo e tem muitos fellows que sentem falta disso h\u00e1 muito tempo \u00e9 essa quest\u00e3o da rede. Ent\u00e3o ainda n\u00e3o \u00e9 de fato uma rede. \u00c9 um coletivo. Um monte de mentes brilhantes e id\u00e9ias super criativas. Id\u00e9ias que saem, sabe, do nada. Com poucos recursos. Pessoas que conseguiram fazer; todos n\u00f3s temos hist\u00f3rias brilhantes, n\u00e9? Ent\u00e3o, eu fico ouvindo as hist\u00f3rias dos outros, eu fico: \u201cGente, \u00e9 muito mais legal do que eu fiz.\u201d \u201colha, mas que maravilhoso.\u201d \u201cComo \u00e9 que voc\u00ea conseguiu fazer isso?\u201d Ent\u00e3o, assim, voc\u00ea vira f\u00e3 de todo mundo. Ent\u00e3o, pra mim esse potencial que tem, se a gente conseguisse fazer isso virar uma cadeia de a\u00e7\u00f5es; da aquela coisa que eu \u201ctava\u201d falando ontem, n\u00e9? Eu gosto de ver isso como uma receita, como ingredientes, n\u00e9? Algu\u00e9m tem uma farinha espetacular. O cara pegou do nada e fez uma farinha super fina, a melhor farinha do mundo. Outro tem uma colher de pau, que \u00e9 uma madeira que ele extraiu de tal lugar, que nunca quebra, pode entrar no fogo, sabe? Voc\u00ea tem o sal, eu tenho o forno. Tem um monte de produtos maravilhosos separados. Que n\u00e3o mudam o mundo. Mudam o mundo da pessoa. Mas cada um de n\u00f3s sabe que falta um monte de coisas nas nossas comunidades, nosso trabalho. Cada um de n\u00f3s sabe a car\u00eancia que tem, n\u00e9? Que isso n\u00e3o est\u00e1 mudando o mundo ainda. Mas a id\u00e9ia de poder juntar, sabe? Se fosse poss\u00edvel as pessoas sentarem, e isso \u00e9 um pouco complicado, em c\u00edrculo, de frente uma pra outra e falar: \u201cOlha, o planeta est\u00e1 assim.\u201d \u201cO que \u00e9 que eu tenho de melhor pra doar?\u201d Sabe? Ent\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 o produto que ele fez, o que ele realizou com a vida dele, mas os contatos que cada um dos fellows t\u00eam. O contato que tem com a m\u00eddia. O contato que tem com as suas comunidades. A credibilidade. O que voc\u00ea construiu em torno de voc\u00ea, pode mexer com muita gente. Ent\u00e3o, eu vejo assim que a Ashoka tem potencial, como v\u00e1rias outras redes, mas s\u00e3o t\u00e3o brilhantes esses fellows que a gente tem um potencial de fazer um movimento de reverter essa realidade no mundo. Essa rea\u00e7\u00e3o em cadeia que a humanidade precisa pra acreditar, assim como nossas comunidades, essa alegria, construir uma pra\u00e7a, sabe? D\u00e1 in\u00edcio \u00e0 uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia, disso come\u00e7ar a mudar a comunidade deles inteira. No ensino, na sa\u00fade. Mas, a partir de uma pra\u00e7a, a partir de alguma coisa bela. Se os fellows fossem capazes de fazer alguma coisa juntos, alguma coisa bela, uma pra\u00e7a juntos. Isso \u2013 acho \u2013 que ia reverberar muito forte pra humanidade. Ia ser um exemplo, n\u00e9? Na gente, nas nossas comunidades, de sair essa rea\u00e7\u00e3o em cadeia que \u00e9 o meu projeto de transformar essa realidade no curto prazo que a gente tem no planeta inteiro. Acho que isso; pra mim \u00e9 o maior potencial da Ashoka, que ainda n\u00e3o se realizou E eu fico assim me debatendo \u2013 acho \u2013 que nesse evento a gente est\u00e1 tentando isso tamb\u00e9m. Mas, me debatendo em, como \u00e9 que a gente faz isso? Qual \u00e9 a semente? Nas comunidades \u2013 eu j\u00e1 sei \u2013. Mas, ser\u00e1 que eu vou chamar os fellows todos pra fazer uma pra\u00e7a juntos? Pode ser. Mas, como \u00e9 que pode fazer algumas coisas que quando a gente olha, a gente entende que a gente pode o que a gente quiser? Acho que os fellows precisam entender isso tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 A \u00faltima pergunta. Vindo pra essa quest\u00e3o de estar agregando essas pessoas na Confer\u00eancia de Ilhas Marinhas do Brasil. Como os fellows que est\u00e3o aqui, Kak\u00e1, voc\u00ea, o Alex, o Juan, que veio do Uruguai. Como voc\u00eas podem come\u00e7ar a pensar?<\/p>\n<p>R \u2013 A gente j\u00e1 est\u00e1 pensando Ontem tivemos conversas muito boas. O Alex teve uma iniciativa fant\u00e1stica. O Alex deu o primeiro passo de chamar isso, convidar e escrever o projeto. \u2013 Eu j\u00e1 achei \u2013 isso magn\u00edfico Escolher esse lugar. Florian\u00f3polis j\u00e1 \u00e9 m\u00e1gico, a ilha j\u00e1 \u00e9 m\u00e1gica. Um lugar que a gente est\u00e1 em cima do monte, vendo s\u00f3 beleza. Ent\u00e3o, falei assim: \u201cAlgo importante vai acontecer aqui.\u201d \u2013 Acho \u2013 que esse j\u00e1 foi o primeiro passo. O Kak\u00e1 j\u00e1 \u00e9 parceiro h\u00e1 bastante tempo, \u00e9 importante trazer a cultura ind\u00edgena. Isso porque o Alex tem essa clareza de saber que \u00e9 importante a diversidade, ter pessoas de v\u00e1rias \u00e1reas diferentes, n\u00e3o s\u00f3, teoricamente, ambientais, n\u00e9? J\u00e1 foi um, sabe, um segundo passo espetacular tamb\u00e9m. Eu acho que o nosso papel assim; a gente est\u00e1 tentando criar aqui uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia tamb\u00e9m. Est\u00e1 planejando; essa coisa inv\u00e9s de fazer uma carta escrita que ningu\u00e9m vai ler, sabe? Fazer mais papel. A gente criar um v\u00eddeo, um pequeno v\u00eddeo com a ajuda de voc\u00eas que j\u00e1 est\u00e3o envolvidos nisso. De fazer as pessoas chorarem, n\u00e9? Um v\u00eddeo de despertar, que possa causar uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia nos fellows inicialmente, de quanto recurso eles t\u00eam, e de qu\u00e3o mais forte pode ser, como a gente pode se juntar, sabe? Um mais um, quanto vai ser muito mais do que dois, entendeu? Ou tr\u00eas, sabe? Mas, vai ser muito mais do que nove. Talvez despertar uma vontade, um interesse, um sentido de que a gente pode se juntar e fazer alguma coisa muito maior do que a enormidade, a \u201cenormitude\u201d do que a gente j\u00e1 tem feito. Nos nossos lugares. Porque a gente tem essa; a gente j\u00e1 est\u00e1 meio; tudo que gente faz, cada um no seu lugar j\u00e1 \u00e9 muita coisa, a gente est\u00e1 sonhando muito mais coisas, e j\u00e1 n\u00e3o tem mais bra\u00e7os. Mas, a id\u00e9ia, sabe, de dar uma respirada e pegar isso tudo que eu j\u00e1 fiz e olhar, ou voar um pouquinho pra fora disso e olhar, sabe, tudo que o Kak\u00e1 est\u00e1 fazendo e conseguir entender uma ordem, um encadeamento disso, sabe? Essa farinha que eu fa\u00e7o, que \u00e9 espetacular e que eu vendo pro mundo inteiro e todo mundo acha maravilhoso. Ela juntando com mais tr\u00eas, quatro, cinco vira um bole de chocolate com cobertura, com chantilly, com confeitos, com \u201cvelinhas\u201d de parab\u00e9ns, com todo mundo batendo palmas: Parab\u00e9ns E a\u00ed vira a festa que a gente quer no planeta, entendeu? Ent\u00e3o, essa possibilidade de voc\u00ea sair um pouco do teu territ\u00f3rio e olhar pro lado, n\u00e9? Porque mesmo quando a gente faz parceria, a gente faz parceria pensando o nosso trabalho, n\u00e9? Ah, eu vou fazer com ele, n\u00e9? Ent\u00e3o ele vai ganhar. O Museu da Pessoa vai ter mais um monte de material super legal de filmagem e eu vou ter um monte de tecnologia que possa usar na minha comunidade pra fazer o meu projeto, o meu sonho. Parar desse bin\u00f4mio, entendeu? J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais ganha, ganha. \u00c9 ganha, ganhamos Agora \u00e9 o planeta que est\u00e1 pedindo. N\u00e3o \u00e9 mais o meu \u201cvalezinho\u201d, n\u00e3o \u00e9 mais a minha favela, n\u00e3o \u00e9 mais as minhas crian\u00e7as, nem as minhas mulheres, n\u00e9? N\u00e3o \u00e9 mais o meu p\u00fablico que eu trabalho. Mas, a nossa ilha inteira est\u00e1 sofrendo. A nossa ilha inteira est\u00e1 em risco. O meu trabalho, o meu sonho inteiro est\u00e1 em risco se a gente n\u00e3o cuidar do planeta agora. Ent\u00e3o, tudo que a gente reclama que o Bush n\u00e3o faz, que as Na\u00e7\u00f5es Unidas n\u00e3o faz. Talvez, a gente tamb\u00e9m n\u00e3o esteja fazendo. A gente n\u00e3o est\u00e1 largando o nosso peixe pra juntar todo mundo, entender que tem um peixe muito, sabe? Que o lago est\u00e1 em perigo. Ent\u00e3o, n\u00e3o adianta ficar cuidando do meu peixe, que o lago est\u00e1 em perigo, ningu\u00e9m vai ficar. Ent\u00e3o, acho que assim, talvez o nosso desafio, o que a gente est\u00e1 tentando estudar aqui nesses dias \u00e9 ver: O qu\u00ea \u201cque\u201d a gente pode fazer sem ficar apontando erro? Se eu falar pra cada fellow, ou se algu\u00e9m falar pra mim; \u201cVoc\u00ea est\u00e1 errado\u201d \u201cVoc\u00ea deveria, voc\u00ea deveria, voc\u00ea deveria.\u201d Nem meu pai, quando eu era crian\u00e7a falava isso, eu ouvia. A\u00ed, voc\u00ea fica tentando fugir disso. Ent\u00e3o, como \u00e9 que a gente pode ser tocado pelo cora\u00e7\u00e3o? Que \u201cque\u201d vai mobilizar a gente a querer fazer, naturalmente, com todo o prazer? Por que \u201dque\u201d eu convido as pessoas pra uma festa e n\u00e3o pra um sacerd\u00f3cio, uma tarefa: Vamos salvar o planeta? Mas, eu acho que o \u00fanico jeito de fazer os fellows ou outras pessoas no mundo quererem pular pra dentro, largarem tudo que tem que fazer, ou largar um pouquinho, ou trazer tudo o que tem que fazer, num outro momento, \u00e9 convidar pra alguma coisa que seja muito feliz, muito alegre. Ent\u00e3o, esse \u00e9 o nosso desafio agora. Como \u00e9 que a gente; pra que festa a gente vai convidar eles? A gente tem tr\u00eas dias pra pensar nisso<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Edgard, obrigada pela entrevista. Acho que a gente podia continuar falando de muitas outras coisas. Mas acho que j\u00e1 est\u00e1 um bom retrato da sua atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>R \u2013 J\u00e1<\/p>\n<p>P\/1 \u2013 Muito obrigada, mesmo.<\/p>\n<p>R \u2013 Obrigado, voc\u00eas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.museudapessoa.net\/pt\/conteudo\/pessoa\/edgard-gouveia-junior-19239\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Confira no site original!<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Empreendedor S\u00f3cioambiental&#8230;&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-974","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.3 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Museu da pessoa, Empreendedor Socioambiental - 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